Sabrina Noivas 90 - The Bride's Second Thought

Peter fechou os olhos e viu-se carregando Ellen at o leito nupcial. Repentinamente a palavra "virgem" veio-lhe  mente. Por 1 momento, permitiu-se pensar que seria o 1 homem na vida de Ellen. Ento 1 arrepio o trouxe de volta  realidade.Queria ter essa responsabilidade? Ellen estava  espera do prncipe encantado havia muito tempo,e ele com certeza no era o homem ideal para inici-la na vida amorosa. Peter no poderia se aproveitar de 1 momento de fraqueza...

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1999
Publicao original: 1998
Gnero: Romance histrico contemporneo
 Estado da Obra: Corrigida

Srie Noivas Virgens (Virgin Brides)
Autor	Ttulo	Ebooks	Data
Palmer, Diana	The Princess Bride
Sab.Noivas 069 - H.Texas 17.1 - Tudo Por Um Beijo	Mar-1998August, Elizabeth	The Bride's Second Thought
Sab.Noivas 090 - Razes Do Corao	Apr-1998Broadrick, Annette	Unforgettable Bride
Sabrina 1044 - Um Amor Para Sempre	May-1998Carey, Suzanne	Sweet Bride of Revenge
	Jun-1998Steffen, Sandra	The Bounty Hunter's Bride
	Jul-1998Ferrarella, Marie	Suddenly... Marriage
Sab.Noivas 092 - De Repente...Casados!	Aug-1998Paige, Laurie	The Guardian's Bride
Sab.Noivas 100 - Planos Para Um Casamento	Sep-1998Christenberry, Judy	The Nine-Month Bride
BD 724 - Aconteceu o Amor!	Oct-1998James, Arlene	A Bride to Honor
Sab.Noivas 093 -Preldio de Amor	Nov-1998Longford, Lindsay	A Kiss, a Kid and a Mistletoe Bride
Sab.Noivas 113 - Beijo Roubado	Dec-1998Palmer, Diana	Callaghan's Bride
Julia 1129 -  H.Texas 19 - Irmos Hart 03 - As Estaes Do Amor	Mar-1999James, Arlene	Glass Slipper Bride
	Jul-1999Grace, Carol	Married to the Sheik
BD 726 - Casada Com Um Sheik	Sep-1999Shields, Martha	The Princess and the Cowboy
Sab.Noivas 114 - A Princesa e o Caubi	Nov-1999Bagwell, Stella	The Bridal Bargain
BD 741.1 - Selado Com Um Beijo	Jan-2000Cassidy, Carla	Waiting for the Wedding
Sab.Noivas 110 - Meu Primeiro Amor	Feb-2000Clayton, Donna	His Wild Young Bride
Sab.Noivas 117 - Corao Selvagem	Apr-2000Colter, Cara	First Time, Forever
Julia PP 033 - Conto De Fada Existe	Aug-2000Grace, Carol	Fit for a Sheik
Julia 1131 - Sob Medida Para o Sheik
	Feb-2001Wallington, Vivienne	Claiming His Bride
Sab.Noivas 120 - Um Segredo Entre Ns	Apr-2001Bright, Laurey	Marrying Marcus
Sab.Noivas 139 - Eu Sei Que Vou Te Amar	Dec-2001Bright, Laurey	The Heiress Bride
Sab.Noivas 138 - Casamento de Princesa	Mar-2002Smith, Karen Rose	The Marriage Clause
	May-2002

         

        























CAPITULO I

	Que idiota eu fui  Ellen Reese murmurou.
Qualquer deciso tomada s duas horas da manh deveria ser revista  luz do sol. Na verdade, ela tivera o dia todo para fazer isso, mas estava to magoada que evitara pensar sobre o assunto. Portanto, se agora se encontrava em apuros, no havia ningum, a no ser ela mesma, para culpar.
Ao deixar Boston naquela manh, o cu estava claro e limpo. No meio do caminho at New Hampshire, no entanto, alguns flocos de neve j molhavam o pra-brisa do seu carro, mas nem isso a deteve. Nem sequer o mau tempo foi capaz de dobrar sua obstinao. Assim, continuou dirigindo para cruzar a fronteira do Canad, sempre em direo ao norte, para as montanhas.
Pensava nos motivos que a impeliram para essa jornada quando sua ateno se desviou para o deslumbrante cenrio ao redor. Quanto mais se aproximava do outro lado da fronteira, mais bela e selvagem era a vista. Porm, tudo passava por ela meio despercebido.
Pinheiros, carvalhos, pltanos, prados e montanhas, tudo estava sob um enorme cobertor branco. Agreste e exuberante, a natureza ali parecia intocada. Aos poucos, sua ateno foi sendo tomada por tudo aquilo.
S mesmo algo to deslumbrante conseguiria faz-la parar de reviver a cena da vspera.
A neve caa em flocos leves, porm contnuos, havia horas, amontoando-se no cho e na estrada, que exibia uma grossa camada gelada. To espessa que Ellen comeou a pensar a respeito.
Bobagem se preocupar. Afinal, aquilo era o que atraa turistas para l. Raciocinando dessa maneira, no se deixou intimidar pelo clima, pois, em ltimo caso, sempre haveria a possibilidade de parar num motel de estrada e esperar pelo sol.
Convencida disso, Ellen no se abalou com o aumento da nevasca que caa cada vez mais pesada e criava montes cada vez mais altos ao longo do caminho. Ela at chegou a considerar parar quando passou a ltima cidadezinha, mas a fronteira estava prxima, e, entre a obsesso e o bom senso, ganhou a primeira.
Minutos depois, rajadas de vento e neve castigavam o carro com fria. Os ltimos raios do astro-rei se perderam entre a tormenta, e o anoitecer pegou-a de surpresa quando esperava no acostamento.
Voltar era uma opo, mas, segundo o mapa, no estava distante da prxima cidade e, de mais a mais, dar meia-volta quase sem visibilidade era por demais arriscado.
S ento Ellen caiu em si e comeou a se dar conta da extenso dos problemas em que se metera por causa de seu comportamento impulsivo.
Com dificuldade, voltou para a pista, mas, a cada metro, ficava mais difcil dirigir. Nem sinal de que houvesse algum por ali. Alis, desde o ltimo povoado que Ellen no se lembrava de ter cruzado com algum oiitro veculo.
Decerto fora a nica que no pensara em procurar abrigo naquele tempo horrvel. Mais uma vez, recriminou-se por tanta imprudncia. Como pudera ser to tola?!
Seus olhos j quase no enxergavam, e faltava muito pouco para que o desespero tomasse conta da situao, quando, por um milagre, avistou uma caixa de correio quase escondida pelos arbustos. Sem pensar duas vezes, Ellen deixou a rodovia, enveredando por uma estradinha que, por deduo, devia levar ao dono da correspondncia deixada ali.
Sua animao em estar prxima do abrigo no durou muito. Mesmo avanando mais e mais na floresta, nenhum sinal de casa ou cabana era visto, nenhuma luz iluminava a escurido, e os nicos rudos vinham do vento batendo nas rvores.
A estrada vicinal no era pavimentada, e, com tanta neve, no foi nenhuma surpresa que o carro de Ellen atolasse. No esperava ter de percorrer mais que um ou dois quilmetros naquelas condies.
Na nsia de encontrar ajuda, devia ter deixado para trs a casa. Se tivesse estado mais atenta ao sair do caminho, talvez tivesse visto uma outra pista coberta pela neve. Ali, onde estava, na certa no encontraria ajuda.
 A casa s pode estar logo depois da primeira curva  raciocinou em voz alta, como se precisasse disso para tomar coragem.
Respirou fundo, abotoou o casaco e, resoluta, abriu a porta do automvel. Lanterna em punho sentiu-se envolta pelo frio glacial das montanhas. Antes que seus ps virassem picols, se congratulou por no ter sido tola a ponto de esquecer as botas. Pelo menos disso se lembrara. No porta-malas, grossas meias de l a esperavam tambm.
No banco traseiro do carro, Ellen tirou as meias molhadas e o par de tnis. Trocou as luvas e a cala por outras mais quentes e impermeveis. L fora, a escurido era completa, o que a fez ponderar se no deveria esperar at a manh seguinte para buscar auxlio.
O veiculo estava quente, mas por pouco tempo. Se continuasse ali, morreria congelada. Sua alternativa era sair em busca de socorro. Enquanto se preparava para enfrentar a geada um solavanco atingiu o carro.
Apoiado na janela, um animal de patas enormes arranhava o vidro. Aterrorizada, Ellen reconheceu as patas como de um co enorme; e ces, mesmo daquele tamanho, sempre tm um dono.
Ficaria ali, imvel, at que proprietrio aparecesse. Decerto ele devia pertencer quela casa.
A neve j no caa, e o frio estava ainda mais intenso. O cu se abriu um pouco, e a luz do luar iluminou o suficiente para que uma desagradvel constatao fosse possvel. O animal no era um co, mas um lobo.
O pnico tomou-a por inteiro. Lobos no tm donos; lobos tm outros lobos como companhia. Alm de morrer congelada, ainda corria o risco de ser devorada por mandbulas assassinas.
Sem poder sair, lembrou-se dos tempos de bandeirante, e, antes que ficasse sem bateria no carro, usou a buzina para mandar sinais de S.O.S.
O baralho estridente ecoava no meio do vento, e no demorou para que Ellen desanimasse quanto aos resultados dessa medida desesperada. A temperatura dentro do veculo era quase insuportvel, e o lobo no dava mostras de que a deixaria em paz.
De repente, entre os uivos do animal e os dentes de Elen tiritando, um outro som se destacou, diferente dos demais, aumentando de intensidade. O som de um motor!
Desafiando uma provvel matilha e a neve, Ellen no titubeou em sair do automvel, aos berros, deixando acesos os faris para chamar a ateno.
 Aqui!! Olhe aqui! - Movendo os braos, gritou a plenos pulmes.
Em segundos, um veloz snowmobile, um misto de moto e tren, apareceu na trilha vindo em sua direo. Suas preces tinham sido ouvidas. O ronco diminua de intensidade ao se aproximar.
Ellen viu o lobo correr na direo do veculo, mas seu condutor no pareceu assustado com isso. Ao contrrio. Atnita, Elen percebeu que a fera cedia, dcil, aos afagos do desconhecido.
Aproximando-se com alguma cautela, o homem vinha examinando com estranheza Ellen e seu carro. Uma grossa capa o agasalhava, e entre o capuz e a barba pouco dava para ver de suas feies.
Os modos e as roupas no deixavam dvidas: aquele era o que se podia chamar de um homem das montanhas, com toda a rusticidade possvel. Ellen no conseguia ter certeza se estava apreensiva ou aliviada.
Por sua vez, Peter Whitley no conseguia acreditar no que via. O que estaria fazendo aquela mulher sozinha, com um carro de passeio, no meio da tempestade? No mnimo devia ser louca, ou criminosa. Quem sabe? Procurou analisar o que tinha a sua frente.
Louca talvez, mas no acreditava aquela jovem pudesse ser uma fora-da-lei. Era quase uma criana, pelo que podia ver.
O rosto plido exprimia uma tenso que no tinha nada a ver com a situao atual. Com certeza, outros problemas a perturbavam alm da neve. At mesmo por isso Peter sentiu-se  vontade para dizer:
S um idiota seria capaz de sair de casa com um tempo destes.  A frase tambm podia se aplicar a ele, claro.
Ellen at pensou em sentir-se indignada com tamanha franqueza, mas seu bom senso prevaleceu e, sem pestanejar, assentiu. Afinal, precisava dele para sair dali. O vento rugia, e tinham que gritar se quisessem ser ouvidos.
Voc est certo.
Essa reao cordata da parte dela o surpreendeu. Mulheres no costumavam agir assim, pelo menos era o que dizia sua experincia. Sem tirar o olho do carro, depois de poucos minutos falou, categrico:
Voc no conseguir ir a lugar nenhum com isso. No agora. Ter de vir comigo. No pretendo congelar aqui.
Mesmo naquelas circunstncias, Ellen no estava habituada a acompanhar um homem sem ao menos saber seu nome, mas o instinto de sobrevivncia a deixou confusa. Enquanto Peter acelerava o snowmobile, ela permanecia imvel.
Havia um limite para a pacincia masculina, e no inclua demonstraes de boas intenes, no debaixo daquela temperatura absurda. Assim, Peter encarou-a.
Senhorita, a escolha  sua. Pode ficar aqui e virar uma esttua de gelo ou vir comigo para minha casa. 
Mesmo assim, Ellen ainda quis argumentar:
	Preciso pegar minha bolsa e a mala. Um minuto, sim?!
	Esquea, no vai conseguir segurar em mim e nas malas ao mesmo tempo. No sei se percebeu, mas isto  pouco maior que uma motocicleta. Depois, voltarei para buscar suas coisas.
Ellen notou que com aquele homem no havia lugar para cortesia ou boas maneiras. Dirigiu-se para onde ele estava, mas o animal no parecia muito feliz com sua presena, o que apenas serviu para deix-la ainda mais nervosa.
	Acho que seu co no gosta muito de mim.
	No  um co,  um lobo, e tambm no  meu. Tanto ele quanto a cabana so de outra pessoa.  Dirigindo-se para o animal, ordenou:  Amigo. Para casa, j.
No foi preciso repetir a ordem. O lobo obedeceu de pronto, correndo para a estrada. Peter limpou o assento para que Ellen subisse na sua garupa.
Agarrada a um completo estranho, ela se deu conta da gravidade do caso, e um gosto amargo na boca deu-lhe um leve vislumbre do que poderia ter acontecido.
Ao contrrio do que supusera, a cabana estava muito longe do caminho. A floresta parecia cada vez mais densa na medida em que avanavam, e apenas um atalho estreito dava passagem para eles. Nenhum outro veculo passaria por ali.
Ellen comeava a temer que no houvesse cabana alguma quando o cheiro de fumaa e torresmo alcanou suas narinas.
Olhando sobre os ombros de Peter, avistou uma pequena clareira, onde janelas de uma casa se destacavam na escurido. Mas s quando chegaram bem perto ela se deu conta de que se tratava de uma daquelas construes rsticas, feitas de troncos, como se v nos filmes.
O lobo esperava por eles parado nos degraus que levavam  porta de entrada. A construo era grande, ou pelo menos foi o que pareceu  primeira vista.
Um pouco atordoada, Ellen deixou-se guiar por Peter, e no esboou reao quando ele a fez tirar o excesso de neve das roupas antes de entrar.
O interior da cabana surpreendeu-a agradavelmente. O ambiente era aconchegante, e. de rstico, havia apenas alguns toques decorativos.
De um lado, a lareira ardia, tendo um sof e poltronas  frente. Um belo tapete completava com perfeio o cmodo.
Do outro lado, uma mesa de madeira tosca, quatro cadeiras e um balco dividiam o locai de uma charmosa cozinha. Uma porta aberta deixava entrever um dormitrio. Outra, mais adiante, se encontrava fechada, e Ellen deduziu que devia ser o banheiro. Luz eltrica e bom gosto nos objetos que denotavam um certo refinamento contrastavam com o homem a seu lado.
O banheiro  ali, senhorita. Vou buscar sua bagagem. Enquanto isso, pode tomar um banho quente.
Culpada por faz-lo voltar para a noite gelada, Ellen tentou ser razovel:
Acho que posso me arranjar sem ela. Se puder me emprestar uma toalha e camisetas, pouparei voc disso.
Ao menos no era uma moa mimada, reconheceu Peter, com algum alvio. Tudo o que ele no precisava era de uma dama cheia de luxos. Ficou feliz por ela no ser assim, mas teve de ser honesto.
A neve e o vento no vo mudar de intensidade.
Talvez at piorem. Portanto, se no pegar suas coisas agora, amanh ser impossvel, pois seu carro estar soterrado. Sendo assim, h algo mais de que precise, alm da mala e da bolsa?
Contra esse argumento irrefutvel, s restou a Ellen pensar um pouco e pedir que trouxesse seu saco de dormir.
Poucos segundos depois, o snowmobile desaparecia na noite, e Ellen se viu s na casa daquele desconhecido. Suas esperanas de encontrar ali uma famlia estavam frustradas, porque era bvio que ningum mais morava com ele.
S no era esse o termo exato, pois, em frente  lareira, o lobo mantinha-a sob vigilncia, pelo menos era essa a impresso dela. Ainda no estava convencida de que no corria nenhum risco de ser atacada por ele. Por outro lado, o animal tambm a observava com reservas.
Entre a necessidade e o medo, a primeira prevaleceu, e Ellen dirigiu-se ao banheiro. O cheiro de limpeza se confundia com um perfume ctrico masculino, o mesmo que sentira em seu anfitrio.
No atropelo, no fixara sua fisionomia na memria, apenas os olhos azuis e expressivos e o perfume msculo. Olhos azuis e cheios de reprovao, pensou consigo mesma.
O banheiro era grande e branco, com todos os confortos modernos, inclusive uma banheira imensa, secador de cabelos e uma variedade anormal de produtos de toalete, considerando a rusticidade do morador.
Longe da presena masculina de seu salvador, Ellen sentiu-se mais  vontade para explorar a residncia. A sala era bem decorada e construda. A terceira porta revelou um escritrio, equipado com todos os recursos modernos da informtica e um potente rdio amador. As paredes estavam cobertas de livros at o teto.
Subindo uma escadinha, encontrou no mezanino o que deveria ser o quarto de hspedes, pois os nicos mveis eram uma cama, um abajur e uma espcie de mesa-de-cabeceira sobre um belo tapete indgena.
Terminada a inspeo, sem ter mais com o que distrair-se, Ellen viu crescer sua ansiedade  medida que o vento castigava com fora cada vez maior os vidros das janelas.
Uma ponta de culpa a incomodava por ter feito Peter sair naquele tempo horrvel e, por mais que repetisse para si mesma que ele deveria estar habituado a enfrentar o clima das montanhas, cada minuto que passava aumentava sua aflio.
Antes que esse sentimento virasse desespero, um ronco de motor tranquilizou-a..Em poucos minutos, Peter entrava na sala, tirando o casaco e as botas antes mesmo de cumpriment-la.
 Obrigada  agradeceu Ellen ao ver suas malas.
No tem por qu.  Polido e lacnico, Peter falou sem olh-la, ocupado com o casaco.
Estando ele sem os agasalhos e o capuz, Ellen pde observ-lo melhor. Sem perceber que estava sendo examinado, Peter mostrou-se um pouco menos tenso. Ombros largos e musculosos, alto, pernas longas e bem desenhadas sob a cala jeans. Os cabelos negros estavam bem cortados, mais curtos na frente e quase cobrindo a nuca atrs. Os traos eram belos, de uma beleza viril, as mas salientes e um nariz bem-feito, os olhos lindos e azuis. Sua barba era cerrada, mas, pelo contorno das faces, Ellen sups um queixo quadrado.
Enquanto isso, dentro dela o medo crescia em propores assustadoras. A ideia de estar isolada do mundo, durante uma nevasca e com um homem desconhecido que tinha um lobo por companhia era aterradora. E disfarar esse terror comeava a ficar impossvel.
Como se lesse seus pensamentos, Peter falou em tom tranquilizador:
No se preocupe, no sou do tipo que vive isolado das mulheres a ponto de perder a cabea ao encontrar uma. Tenha certeza de que est segura comigo.
Um suspiro audvel escapou de Ellen, que se mostrou bastante aliviada com a afirmao dele. S depois de ter ouvido isso  que seu corpo relaxou de verdade, e ela se deu conta do quanto sua aparncia deixava a desejar.
Sentiu o rosto arder de vergonha por pensar to mal do rapaz que a resgatara da neve e que, nem por um minuto, se comportara de modo inadequado. Embaraada, sua reao foi instintiva. Estendeu sua mo para ele e sorriu ao se apresentar:
	Meu nome  Ellen Reese, e estou muito grata pelo que fez.
	Peter Whitley  respondeu ele, aceitando o cumprimento.
O contato dos dedos firmes de Peter perturbou Ellen a ponto de faz-la recuar um passo. A pele era spera e clida, mas, sobretudo, transmitiam uma energia incomum. 
Gentil, Peter carregou para o quarto as coisas dela, mas sua voz traiu impacincia ao dizer:
	Voc vai ficar no quarto, e eu dormirei no mezanino. Acho bom que torne um banho quente enquanto preparo algo para comer.
	No quero tirar sua cama, por favor...
	Eu insisto. O quarto tem chave, e no quero que perca o sono por temer algo.
	Obrigada.
O banho quente fez muito bem a Ellen. As roupas secas e limpas deram-lhe novo nimo e, ao voltar para sala, estava faminta.
Encontrou Peter entretido na cozinha. Ele no a viu se aproximar, mas o lobo levantou-se assim que Ellen se aproximou, rosnando de leve.
	Acho que seu cachorro no gosta de mim...
	 um lobo. E seu nome  Banner. Jack Greenriver, o dono daqui, o encontrou quando filhote e o criou. Nas tentativas de devolv-lo  floresta, ficou provado que um animal no sobrevive depois de domesticado. Ento, Jack ficou com Banner para sempre e o adestrou como a um co pastor. Alm de aprender mais rpido que os ces, Banner mostrou-se mais fiel ao dono. Portanto, no se preocupe, nada o far atac-la.
Peter arrumou a mesa e serviu po de milho, chili e sopa de cogumelos. O cheiro estava delicioso, e Ellen percebeu que se encontrava faminta. Sem cerimnia, comeu com apetite e sem falar muito.
Peter agradeceu por ter uma refeio silenciosa. A presena dela j o perturbava o bastante sem que precisasse ouvi-la falar ou sorrir.
Ao terminarem, Peter tirou os pratos e trouxe ch.
Posso ajudar com a loua, Peter?
A vontade dele era dizer: "Ajudar se ficar longe de mim". Mas, em vez disso, resolveu ser bem-educado.
O telefone est funcionando, Ellen. Por que no tranquiliza sua famlia ou os amigos? Avise que o mau tempo a prendeu aqui. Estamos entre Colebrook e West Sterwardton.
	Ningum est me esperando.
	Veio aqui por alguma razo, ou no enfrentaria essa neve toda.
	Eu precisava conhecer o Canad. Sair do pas.
	No parece uma fugitiva, ento o problema s pode ser um homem. Acertei?
	Sim, trata-se de meu noivo. No queria estar no mesmo pas que ele.
	No acredito que quase morreu congelada por causa de uma briga de namorados!  E pelo olhar faiscante dava para perceber que isso era muita estupidez da parte dela.
Ellen no podia censur-lo por isso, mesmo sendo irritante ser vista assim.
	No precisa dizer nada, Peter, j me arrependi. Porm,  Charles me deixou descontrolada com seu comportamento.
	Bem, faa como quiser. O aparelho est a sua disposio.
	Tem razo. Charles deve achar que fui para Kansas City, onde moram meus pais, e eles vo se preocupar se eu no der notcias. Se no se importar, direi que estou visitando um amigo da faculdade.
Peter resmungou qualquer coisa em sinal de assentimento. Com o canto do olho observou-a andar at o escritrio. Graciosa e atraente, porm comprometida com outro. S por esse motivo j sabia que teria de tir-la da cabea.
Na privacidade do escritrio, Ellen telefonou para os pais. Charles j ligara para l. Ento, Ellen informou por alto que precisava de alguns dias para descansar e pr a cabea em ordem antes do casamento. Sua me aceitou essa verso dos fatos, e at chegou a dar conselhos sobre os homens.
Mudando de assunto, Ellen certificou-se de que nenhuma preocupao restaria nos seus queridos pais. Despediu-se, se sentindo melhor por ter ligado.
Colocando o fone de volta ao gancho, Ellen deixou-se ficar um pouco mais ali. Pela janela, podia ver a nevasca castigando as rvores. No precisava dizer a ningum, mas, alm da raiva, Charles conseguira despertar nela um outro sentimento: a mgoa.
Por ter sido trada, por ver seu mundo inteiro se desfazer como castelos de areia, sentiu uma infinita dor.

CAPITULO II

Ellen era incapaz de sentir pena de si mesma, por isso no demorou para recuperar o controle de suas emoes. Aquele no era, de maneira alguma, o momento de se afogar em lgrimas. Havia mais com o que se preocupar.
Tinha certeza de que no se demorara, mas, mesmo assim, encontrou a cozinha arrumada e seus anfitries instalados em frente  lareira. Enquanto Banner dormia aos ps de Peter, ele parecia fascinado pelo livro que tinha nas mos, um volumoso compndio sobre a civilizao maia.
Ellen jamais poderia supor que atrs daquela aparncia rude existisse algum intelecto. Um pouco irritada com a falta de loquacidade de seu anfitrio, resolveu agir do mesmo modo glacial.
	No pude deixar de notar a biblioteca vasta. Ser que posso pegar algo para ler?
	Sinta-se em casa.  Lacnico, Peter nem ao menos levantou os olhos.
Quanto menos contato, melhor. Portanto, foi com alvio que Peter a viu voltar para a sala com um livro, o que o pouparia de um dilogo corts e, portanto, incmodo. Estava livre para mergulhar sem culpa na leitura.
Ellen no conseguia nem ao menos fingir algum interesse pelo que estava lendo. Irritada com a indiferena total a que estava relegada, voltou para o escritrio. "Evidente que no sou o tipo de mulher capaz de despertar o interesse de um homem." Pensando nisso, ps-se a examinar o contedo das estantes. Nada mais revelador da alma humana que os livros.
A grande maioria dos volumes era toda dedicada aos povos nativos da Amrica. No foi difcil notar que muitos deles eram do mesmo autor: Jack Greenriver.
Entretida, Ellen quase conseguiu apagar da memria o que a levara at ali.
Curiosa, voltou para a sala, interrompendo a concentrao de Peter e o sono de Banner com suas perguntas.
Se no me engano, voc disse que Jack Greenriver era o dono da cabana.  o mesmo dos livros?
Seus cabelos estavam secos agora, formando anis ao redor do rosto delicado de menina. Mesmo a contragosto, Peter achou-a linda.
E ele, sim.
O laconismo da resposta no deixou dvidas quanto  pouca disposio dele para conversar, mas Ellen fingiu que no notara, e prosseguiu:
	Vi diversas obras dele na biblioteca, e suspeitei disso.
	Ele est no Arizona visitando a famlia e fazendo pesquisas para seu prximo trabalho.
Uma rajada de vento um pouco mais violenta fez balanarem os vidros da cozinha e, apesar da calefao, um pouco do frio alcanou-os. A neve no parava de cair.
Decerto est bem mais quente l.  Ellen tiritou.
"Calor  o que estou sentindo a seu lado", pensou Peter, olhando para os cachos castanhos a seu lado. "Um homem no deve ficar tanto tempo isolado, ou acaba pensando besteiras."
De imediato, voltou-se para as pginas abertas, encerrando a conversa.
Com certeza.
No havia chance de continuar a conversar. Peter fora bastante claro em sua opo pela leitura. Portanto, s restou a Ellen sentar-se no sof e tentar mais uma vez se concentrar no livro. Ou pelo menos fazer de conta que lia. Sorrateiro, seu olhar se voltou para Peter, e, num exame minucioso ps-se a compar-lo a Charles, seu noivo.
Charles tinha trinta e cinco anos, e seu anfitrio tambm devia estar nessa faixa. Alis, tambm tinham em comum a altura e o tipo fsico, mas as semelhanas terminavam a. Peter no devia ir muito ao barbeiro e, pelo jeito, jeans e camisas de flanela eram seu uniforme. E botas, claro.
Por outro lado, Charles ia quinzenamente aparar os cabelos e as unhas, e seu guarda-roupa tinha mais ternos do que ele podia vestir. Jeans jamais eram usados por ele. No mximo uma cala mais esportiva quando a ocasio exigia informalidade. Tudo nele era impecvel, suas maneiras, sua casa e seu vesturio. Impecvel demais.
Peter, apesar da aparncia rude, demonstrara bons modos  mesa, refinados mesmo. Pensando bem, Ellen estava to acostumada aos exageros de Charles que perdera um pouco a referncia sobre os homens.
Peter tentava, quase em desespero, parecer alheio aos olhares perscrutadores de Ellen. Era muito constrangedor ser examinado daquela maneira por qualquer pessoa, quanto mais por uma jovem atraente.
Perspicaz, Ellen sentiu no ar um certo desconforto, e tratou de se concentrar no livro.
Ambos, Charles e Peter, tinham olhos azuis. Mas os de seu noivo eram quase imperceptveis, desbotados de emoo, em comparao aos de Peter, azuis como safiras, como o cu de inverno. Charles, como um quadro de De-lacroix. Peter a fazia pensar em Monet ou Ceznne.
No seria o caso de chamar um mecnico para meu carro, Peter?
Foi o que fiz enquanto voc estava no banho.
Ellen conseguiu flagr-lo. Peter tambm a observava, o que a fez corar como colegial, e murmurar apenas:
Obrigada.
Essa reao era mais perigosa para Peter que a tagarelice feminina. Por absoluta precauo, indagou:
Desculpe-me a indiscrio, mas voc me parece inquieta. No se sentiria melhor se telefonasse para seu noivo?
Cerrando os dentes, tensa, replicou:
No quero ouvir a voz dele. No por enquanto.
No bastasse isso, Ellen levantou-se e, impaciente, comeou a rondar pelo aposento, emanando tenso. O incomodo dela se propagou no ambiente, contagiando at Banner, que despertou.
No tenho nada a ver com sua vida, Ellen, mas seu nervosismo est me deixando preocupado. Confesso que no sou o tipo ideal para confidncias, mas, se quiser desabafar, estou s ordens. Dizem que ajuda.
O olhar lmpido e o livro fechado pareciam confirmar a veracidade da afirmao.
	Vindo de um homem, considero-me lisonjeada com isso.  Notando o tom de sua prpria voz, Ellen reconsiderou:  Perdoe-me por minha grosseria, mas, depois do que Charles fez, no consigo olhar os rapazes com muita simpatia.
	Ningum  perfeito, lembre-se disso.
	Nunca esperei perfeio, no sou ingnua. Mas supunha que, depois de marcar o casamento, um homem tivesse certeza da mulher que escolheu.  Sentada, respirou fundo para se acalmar.  Pelos planos de meu noivo, deveramos nos casar no prximo ms. Sou engenheira mecnica, tenho um bom emprego e trabalho com robtica. Na noite passada, precisei fazer sero, pois um dos prottipos acusava mal comando. Ento, avisei que passaria a noite no laboratrio e cancelei nosso jantar. Charles pareceu aborrecido com isso. Desse modo, ao terminar o trabalho, trs horas mais tarde, resolvi fazer-lhe uma surpresa. Comprei comida chinesa e fui a seu apartamento, para jantarmos juntos. Resumindo, abri a porta e o encontrei com outra mulher. Alm de ser trada, descobri que Charles no confia em minha competncia profissional, pois nunca imaginou que eu resolveria to rpido o problema no rob.
Peter no conhecia o homem em questo, mas j o achava um idiota completo. Mas seu cavalheirismo o impeliu a dizer o contrrio.
	Alguns sujeitos precisam ter uma ltima aventura antes de se entregar em definito  mulher de seus sonhos.
	Do jeito que falou, faz parecer to banal esse tipo de comportamento, como se fosse um pquer entre amigos! Ser que vocs no tm noo do que significa compromisso?!
Peter sentiu-se colocado na vala comum, junto de toda a escria masculina, e no sem razo, concluiu. Se fosse ele, pensaria o mesmo.
Os homens no sei, mas posso garantir que eu tenho.
No dia em que me comprometer com uma mulher, ela ser a nica.
Ellen viu sinceridade nos olhos dele, e mais que isso: observou seu prprio reflexo naquele azul profundo, que parecia engoli-la por inteiro.
Peter se perguntava que gosto teriam aqueles lbios perfeitos. Balanou a cabea como se assim pudesse espantar os pensamentos. Afinal, Ellen era comprometida e estava fragilizada pela situao. E ele ainda se considerava um cavalheiro.
	Ellen, voc experimentou ouvir o que Charles tinha para dizer?
	Dizer? Quem?  Por segundos, Ellen se esquecera de tudo, magnetizada pela presena de Peter.
A atrao repentina a deixou fora do ar, e, assim que tomou conscincia disso, suas faces ficaram rubras. No passou despercebido a Peter o sbito embarao de sua hspede. Chamando-a  razo, insistiu:
	Charles. Voc ouviu o que ele disse?
	Claro...  E a imagem do noivo voltou a ocupar sua mente.  Voc no vai acreditar. Charles tentou pr a culpa em mim!
	Seu noivo afirmou que a culpa de ele ter um caso  sua?!
Ellen empertigou-se antes de explicar:
Voc, na certa, vai me achar antiquada. Talvez at ridcula, mas sou virgem.  Percebendo a falta de tato da revelao, Ellen procurou abrandar o tom de seu discurso.  Quero dizer, por convico, resolvi me guardar para o casamento. Pela sua expresso, aposto que sou a nica mulher de vinte e nove anos assim em toda costa leste. E a oeste tambm.
Desculpe-me por decepcion-la, mas no consigo ver as pessoas sob esse ponto de vista.
Essa ponta de irritao e desafio a tornavam ainda mais desejvel, concluiu Peter. O ar infantil desaparecera. Era uma mulher que estava ali. Mudo, esperou-a falar mais.
Cresci nos tempos da aids, portanto, entre fazer amor com medo ou milhares de precaues, optei pelo romantismo. Por que no transformar a vida num conto de fadas? A maioria de minhas amigas voltava das noites de sexo ocasional decepcionadas. Para que negarmos que estamos quase sempre  espera do prncipe encantado, que ficar conosco para sempre? No pense que essa foi uma deciso fcil. No sou frgida, e em vrias ocasies estive muito tentada a quebrar essas regras.
Por um momento, Peter visualizou a dor estampada na feio delicada e teve noo da gravidade da crise que Ellen estava atravessando. Mesmo a distncia, sentiu muita raiva do homem que havia produzido esse sofrimento numa criatura assim. Foi sem pensar que disse:
	No imagina quanta gente aplaudiria sua atitude. Coragem e honestidade so raras de encontrar.
	Ento devo estar surda, pois s o que a mdia alardeia  o oposto disso.  Era um desabafo, e devia estar entalado havia muito, pois os olhos dela faiscavam ao falar.  Mas no sou suscetvel a influncias externas. Mesmo quando ficamos noivos e Charles argumentou que no havia por que adiarmos, preferi esperar a noite de npcias e viver meu sonho romntico.
Peter percebeu a necessidade de Ellen de falar sobre si mesma, sobre seus valores, na certa jamais expostos de forma to clara e direta. Ento, deixou-a livre, man-tendo-se interessado no que estava sendo dito.
Aps um breve suspiro, Ellen retomou sua narrativa, mas o tom de voz estava diferente, muito mais amargo, e era perceptvel sua decepo.
Minha deciso romntica frustrou meu noivo de tal maneira, disse-me ele, que foi preciso uma outra mulher. J que eu no estava disposta ao sexo, Charles foi procurar em outra o que eu lhe neguei.  E, cheia de raiva, completou: - E sabe onde foi encontrar consolo? Na recepcionista da firma, uma jovem de vinte anos, cheia de curvas!
Peter tentou se esquivar de seus prprios desejos despertados por Ellen fazendo o papel de advogado do diabo, tentando dirimir o pecado de Charles.
	H outra maneira de ver essa histria, Ellen.
	Mesmo?! E qual ?
	Talvez Charles quisesse ter certeza de seus votos matrimoniais, e tentou fazer algo pela ltima vez, para estar convicto ao se casar.
	No acredito que disse isso, Peter! Ser possvel que os homens se defendam mesmo sem se conhecer?
 No  a ele que estou defendendo, mas a voc e ao sentimento que nutre por seu noivo. No se pode abandonar tanto amor de uma hora para outra.
Nutria, amava: passado!
Do fundo do corao, Peter gostaria que isso fosse a expresso da realidade, mas sua experincia lhe dizia o contrrio.
Se no o amasse, no estaria to abalada. Vamos, Ellen, chega de discusso. A melhor conselheira  a cama. Hora de dormir. Amanh conversaremos.
Peter sentia-se impotente para qualquer atitude sensata. Muito mais que Ellen, quem estava ficando confuso era ele mesmo com aquele assunto.
Quem  voc para falar sobre relaes, Peter, preso aqui no meio da neve tendo um lobo como companhia?!
Peter procurou manter-se calmo para no responder com aspereza. Contou at cinco, olhando para o teto, mas, antes de terminar ouviu o riso de Ellen, dizendo em tom apaziguador:
Esquea, no  de minha conta a sua vida.
Entre ser mal-educado ou se deixar levar por ela, Peter tentou um meio-termo:
Viajei e viajo muito. Sou gelogo, e vou aonde meu trabalho me leva.  Sentindo que se expusera demais, voltou-se ao livro numa tentativa de fuga.
Na imaginao de Ellen, a figura dele escalando montanhas atrs de amostras pareceu bastante atraente. A realidade e a fantasia se misturavam naquele homem, de maneira perigosa.
Peter estava com a razo. A melhor coisa a fazer era dormir. Ellen levantou-se e, com polidez, dirigiu-se a ele:
Vou me deitar. Boa noite, e muito obrigada pela hospitalidade.
Peter s conseguiu relaxar minutos depois, quando teve certeza de que sua hspede j estava acomodada sob as cobertas, e com a porta trancada.
At ento, vendo-a ou ouvindo-a no banheiro ou no prprio quarto, a inquietao permaneceu. S depois de ver a luz se apagar no vo da porta  que se sentiu tranquilo. Acariciando o pescoo de Banner, murmurou de si para consigo:
Companheiro, quanto antes ela partir, melhor para ns dois.
No escuro do quarto, sob as cobertas macias e limpas, Ellen se ps a pensar com mais calma nos acontecimentos da noite. Sentiu-se uma grande tola, e na certa era essa a imagem que Peter fizera dela,
"Se queria cruzar uma fronteira devia ter ido para o Mxico", pensou ela.
O vento assobiava na janela, e seu ltimo pensamento se dividiu entre a mgoa de se lembrar de Charles e Janet e a ironia de estar numa cabana nas montanhas na companhia de um lobo e de um estranho.	
Mesmo com tais conjecturas, em poucos minutos Ellen dormia profundamente.

CAPITULO III

Ellen acordou com o aroma delicioso de ba-con, mas, antes de estar completamente desperta, a lembrana de suas confisses da noite anterior a deixaram de mau humor. No fosse a urgente necessidade de ir ao banheiro, se esconderia naquelas cobertas o dia todo. Alm do mais, seu apetite fora atiado pelo cheiro bom que vinha da cozinha.
Em dois minutos, estava vestida e, aderindo  rusticidade ambiente, esqueceu-se da aparncia, sempre to bem cuidada. At os cachinhos naturais de seus cabelos, todos os dias submetidos a severas sesses de escova, foram deixados em paz. E o rosto, sempre sob algumas camadas de ma-quilagem, saiu limpo e fresco, ostentando algumas sardas.
Afinal, s uma pessoa a veria, e impressionar seu amvel anfitrio era a ltima de suas vontades. Alis, s o que queria era arrumar um jeito de voltar para Boston. Com seu carro, claro.
	Bom dia.  Bastou abrir a porta do quarto para ver Peter. 
	Bom dia, Ellen  respondeu, voltando-se para as panelas.
No banheiro, Ellen, ao espelho, refletia sobre as facetas de Peter, que, decerto, no estava pulando de felicidade por sua presena.
Mas, para sua surpresa, bastou abrir a porta para ser surpreendida pela voz bem-humorada de Peter anunciando que o desjejum estava pronto. O cheiro das panquecas fumegantes fez seu estmago roncar, e ela se lembrou do que era ter fome.
Espero que goste.  Peter serviu-a.
Alm de panquecas, bacon e ovos completavam o prato. Era uma legtima refeio das montanhas, suculenta e nutritiva. Enquanto a servia de caf, Peter falava:
A neve parou. Vou at seu automvel para ver o que podemos fazer por ele.
Muito embora estivesse com a boca cheia d'gua, Ellen foi categrica ao afirmar:
Espere, irei com voc.  Entre o apetite e a obrigao, Ellen no pestanejaria.
Peter resolveu dar um tempo, e colocou seu casaco de volta no cabide. Se era to importante para Ellen, talvez fosse o caso de esperar que ela comesse.
Precisava que ela fosse embora o mais rpido possvel, e, se sua presena ajudasse nisso, por que no tentar?
A figura delicada e adorvel de Ellen o perturbava sobremaneira. Peter evitou que seus olhares se encontrassem, e, para sua prpria segurana, resolveu sair. Aqueles olhos castanhos eram magnticos, e para evit-los s a distncia. Mas a boa educao o obrigou a dizer:
	Coma. Eu espero, tenho mesmo que recolher lenha.
No havia dvidas. Peter mudara seus planos por causa dela. Em outra ocasio, Ellen no teria permitido isso, mas sua fome no era pequena. Para completar, tudo estava perfeito, o bacon e os ovos no ponto certo, como nem sua me faria. "Daria um excelente marido cozinhando assim." Mal terminou de formular esse pensamento e j se recriminava. No era hora nem lugar para isso. Nem assim, porm, conseguiu refrear sua imaginao, que a encaixava entre os braos de Peter.
O som da madeira sendo partida a lembrou de terminar de comer e correr para fora. Mastigando o ltimo bocado, Ellen colocou o prato na pia e tratou de vestir o casaco antes de sair para o frio.
Ao v-ia, Peter abandonou a lenha e aproximou-se do snowrnobile. Meio sem jeito, arrumou a garupa para ela. Como se precisasse, explicou:
	No quero ser pessimista, mas talvez seja preciso um pouco de chuva antes que possamos achar seu carro. Quero dizer, antes que o mecnico consiga fazer algo por ele.
Ellen subiu no veculo e partiram.
O vento e a velocidade obrigaram-na a agarrar-se a Peter com fora, enlaando sua cintura. Silenciosos, avanavam na neve, cada qual com seus pensamentos.
Os de Peter seriam censurados, sem dvida. Em sua fantasia, ele a despia devagar, e quase podia senti-la em suas mos. O que causou-lhe ao mesmo tempo prazer e desgosto. Se por um lado a sensao era deliciosa, por outro seu senso moral o recriminava com veemncia, fazendo-o pensar que estava havia tempo demais longe de companhia feminina.
Para alvio de ambos, chegaram ao automvel.
Banner os seguira at ali e, assim que o snowmobile parou, ele comeou a dar voltas em torno do carro, que estava quase coberto pela neve. Para no desanim-la, Peter explicou que dois de seus companheiros viriam para ajudar o mecnico. Dessa forma, no demoraria muito para que Ellen pudesse sair dali.
Jake, o dono da oficina, vai precisar de um guincho. Pedi para os irmos Grady virem tambm.
Mais uma vez, a impacincia de Ellen venceu.
No sei mesmo como me desculpar pelo transtorno que estou lhe causando.  Tensa, desviou o olhar.  Talvez seja melhor que eu mesma tome conta disso. Voc pode voltar para seus afazeres.
No mesmo instante, Peter arrependeu-se de sua rispidez. Afinal, por mais perturbado que estivesse com a presena dela, no tinha inteno de faz-la sentir que no era bem-vinda.
Desculpe-me, mas no momento nada  mais importante que isto para mim.  Peter no era muito bom em ser gentil, mas fez o melhor que podia.  Se pareci rude  porque temo que voc volte a cometer imprudncias como esta.
Pode ficar tranquilo, aprendi a lio. No repetirei a aventura. Podemos mudar de assunto?
Sentindo uma ponta de hostilidade nas palavras dela, Peter limitou-se a dar de ombros, e assentiu.
Considere encerrado, Ellen.
Mal terminara a frase e foram surpreendidos pela presena de um carro de polcia, que, mesmo equipado com correntes nos pneus, tinha dificuldade em trafegar no terreno fofo. Ao v-los, a viatura parou, e um oficial desceu a fim de ter com eles. Alto e corpulento, tinha uns quarenta anos e um rosto muito simptico.
Bom dia  cumprimentou Peter.
- Peter Whitley?  O policial estendeu a mo para cumpriment-lo.  Meu nome  Rick Mack.
	Jack me falou de voc. E muito bem.
	Obrigado.  Rick sorriu, envaidecido.
Banner tambm recebeu afagos dele, enquanto Rick esperava ser apresentado para Ellen. Via-se que se tratava de um cavalheiro  moda antiga.
	No creio ter visto a senhorita por aqui.
	Ellen Reese.
Tocando a ponta do quepe num cumprimento corts, Rick respondeu:
 um prazer, srta. Reese.
No passou despercebido de Ellen o brilho de curiosidade e malcia nos olhos do policial, na certa conjecturando sobre que tipo de relao haveria entre ela e Peter. quela altura dos acontecimentos, porm, no fazia sentido se preocupar com mexericos. Desde que conseguisse voltar para a estrada e para Boston o mais depressa possvel, podiam pensar o que quisessem.
Ia perguntar a Rick sobre as estradas quando foi excluda da conversa. Dirigindo-se a Peter, Rick Mack falou:
Jack me disse que poderia contar com voc e Banner para resgates na neve. Temos um avio desaparecido nas montanhas. Pai, me e duas crianas pequenas. Um menino trs e uma garotinha de um ano. Enviaram S.O.S. h mais ou menos uma hora. Pensei que talvez pudesse nos auxiliar nas buscas ao norte da cabana. L a mata  fechada, e helicpteros no funcionam muito.
Conte comigo  afirmou Peter.
De repente, todos os problemas de Ellen ficaram em segundo plano. Para ela, a ideia de uma famlia perdida na neve precisando de socorro tinha prioridade absoluta, a ponto de faz-la esquecer-se de si mesma.
	Gostaria de ser voluntria tambm.
Pelo jeito, aquela garota no tinha mesmo aprendido a lio. Mal sara de uma enrascada e j se metia em outra. Com firmeza, Peter argumentou:
	Voc no conhece estas montanhas, nem est acostumada ao clima. Vai acabar precisando ser socorrida tambm.
	Obrigado pela oferta, senhorita, mas Peter est com a razo.  Rick entregou um walkie-talkie a Peter,  Se tiver qualquer pista, nos chame. No h tempo a perder.
Terminada sua misso, o policial olhou para o carro de Ellen.
	Jsper vir com um guincho.
	A srta. Reese no fazia ideia de como as coisas so por aqui.
O olhar de reprovao trocado entre os homens dizia respeito a ela e sua imprudncia em dirigir naquelas condies. Velada ou no, era uma reprimenda bastante desagradvel. Em resposta ao machismo de ambos, Ellen foi incisiva ao declarar:
	Assim que conseguir colocar meu automvel de volta na estrada, terei enorme prazer em retornar a Boston no mesmo instante.
	Os caminhos esto intransitveis.  Rick pareceu perplexo com a ignorncia de Ellen.  Nenhum veculo poder trafegar nos prximos dois dias, pelo menos. Alm do que, Jsper no poder vir ajud-la to cedo.
	Bem, ento s me resta ficar num hotel at l. Pode me indicar vim?
Num rpido olhar para Peter, o policial resolveu ser claro e direto com Ellen, que comeava a irrit-lo com tanta impacincia. Ao mesmo tempo, como homem da lei, devia garantir a segurana dela, e no conhecia to bem Peter.
Para acabar com qualquer mal-entendido Ellen explicou:
O sr. Whitley  um anfitrio perfeito, mas no gostaria de abusar de sua hospitalidade.
Com alvio, o policial balanou a cabea antes de dizer:
Lamento inform-la, mas receio que no ter outra opo. No h sequer um lugar vago num raio de cinquenta quilmetros. At os abrigos esto cheios. Bem, se no corrermos, aquela gente do avio vai congelar. At logo e boa sorte.
Apertaram-se as mos e Rick partiu.
Peter olhou para Ellen ao subirem no snowmobile, dizendo:
	Vou deix-la na cabana. Vamos.
	Nem pensar. Irei com voc. Tenho experincia com primeiros socorros e serei til.
Se por um lado aquela teimosia o irritava, por outro ela estava certa. Seria mais rpido se seguissem direto para a floresta. Tinham cobertores e uma maleta de emergncia no carro de Ellen.
Em pouco tempo, estavam prontos para partir, e Peter explicou que a busca teria de seguir pela regio norte da montanha, com espessa vegetao e de difcil acesso. Mostrou a Ellen o mapa e esfregou um pouco de neve no focinho de Banner. Em seguida usou um apito e ordenou-lhe:
Resgate. V.
O animal farejou o ar e saiu floresta adentro.
Jack o adestrou como farejador. Seus ouvidos e seu olfato foram treinados para salvar gente. No h radar melhor que Banner.
Em seguida, eram eles que se embrenhavam pela densa floresta. No poucas vezes precisaram se esqivar de galhos.
No demorou para Ellen sentir os dedos dormentes e a respirao difcil. Com o corao apertado rezava para que as crianas fossem achadas a tempo. Se  que estavam vivas...
Ellen sabia que havia mtodo na busca, mas no conseguia entender como  que Peter se localizava entre tanta neve e rvores, nem mesmo como era capaz de seguir o lobo. O tempo parecia ter parado, e s o que se podia fazer, por enquanto, era rezar.
De repente, Banner parou de correr e durante algum tempo permaneceu esttico  frente de uma pequena depresso. Parados logo atrs, Peter e Ellen esperavam em silncio o que viria a seguir. O vento rugia, inclemente, e nada levava a crer que o avio pudesse estar prximo.
Ellen se sentia desconsolada, e ia dizer isso quando Peter interrompeu-a, sussurrando:
Silncio.
Quando Banner disparou, disse:
	Cruze os dedos para que sejam eles, Ellen.
	Se no estivessem congelados, juro que os cruzaria.
Pareceu uma eternidade, mas foram poucos minutos at avistarem uma clareira. L embaixo, entre rochas e a mata, o corpo do pequeno avio, sem as asas e sem sinal de vida.
Deixando o snowmobile, Peter passou pelo rdio a mensagem de sua localizao ao se aproximar dos destroos. O rudo dos helicpteros era audvel a distncia, mas demorariam algum tempo at conseguirem pousar.
Enterrado na neve, era quase impossvel abrir a porta do avio. O desespero de Ellen aumentou quando um choro fraco de beb alcanou seus ouvidos. Encontrou foras para ajudar Peter a remover a passagem de emergncia, aflita.
Assim que a porta se abriu, Ellen se atirou para dentro, num impulso. Estava escuro no interior, mas ela conseguiu ver duas crianas atadas a seus assentos especiais. Pareciam bem, porm a menor estava quieta e arroxeada. O menino chorava e pedia por socorro num fio de voz. Enquanto lutava para tir-las de l, Ellen tentava tranquiliz-las, dizendo, baixinho:
Pronto, garoto, chegou ajuda...  Entre enrol-lo num cobertor e entreg-lo a Peter foram poucos segundos, mas Ellen no conteve as lgrimas.
A menininha estava sem sentidos e enregelada. Ellen sabia que uma criana no resistiria muito naquela temperatura, mas se recusava a crer que no pudesse salv-la. Desabotoou seu casaco e colocou-a junto ao calor de seu corpo, como fazem os esquims.
Os pais estavam ambos desacordados e bastante feridos, Os sinais vitais no tinham desaparecido, porm nada poderia ser feito antes que o socorro chegasse.
Um fio de esperana brilhou quando Ellen conseguiu sentir o pulso fraco da menina. Ainda estava viva!
Do lado de fora do avio, Peter dava chocolate para o menino e esfregava-o sob dois cobertores.
	Mame, papai... Ajudem eles tambm...
	Calma, rapaz. Vamos tirar todos daqui. Qual  seu nome?  Peter quis saber.
	Phillip. E ela  a Clara... Por que ela no chora mais?
	Ela se cansou, pobrezinha. Tudo est bem agora, Phillip, no se preocupe.  Suas palavras ecoaram como um desejo, no como uma certeza.
No demorou para que chegassem os paramdicos e o helicptero. O tumulto tomou conta do lugar.
Os adultos foram levados primeiro, e mesmo quando Ellen leu o olhar desanimador do mdico ao examinar Clara, no desanimou.
Sem se separarem das crianas foram todos para o hospital no segundo vo. 
Atordoada, Ellen s deixou o beb quando teve certeza de que estavam seguros. Ento, entregou-o para a mdica que estava dentro da U.T.I.
Ela e Peter se viram no centro de um aglomerado de pessoas que falavam todas ao mesmo tempo. Algum perguntou sobre a sade da menina, e Ellen respondeu:
Esto todos vivos. O garoto est bem, mas a pequena no sei.  S ento Ellen se deu conta de que estava diante de uma cmera e de um microfone. Assustada, procurou abrigo atrs de Peter, esquivando-se das outras perguntas. Em dado momento, o piloto do helicptero ofereceu-se para levar Peter e Ellen de volta com ele para as montanhas. Foi com prazer que o seguiram. 
Longe da multido e dos reprteres, voando sobre a neve, Ellen deixou-se dominar pela emoo e s ento se permitiu sentir medo. Tremendo dos ps  cabea, no se controlou e, uma depois da outra, as lgrimas ensoparam seu rosto.
	Peter, ser que Clara vai sobreviver?
	Onde h vida, h esperana. E crianas so bem mais resistentes do que supomos.
Ellen tinha um olhar to cheio de ternura e aflio que o primeiro impulso de Peter foi tom-la nos braos, mas, se o fizesse, no tinha certeza se poderia se controlar e manter no mbito fraternal sua ao. Ento, contentou-se em apertar-lhe a mo e dizer:
Voc fez tudo o que podia, Ellen, pense nisso. Se Clara conseguir, ter sido graas a voc.
Num gesto carinhoso, Peter -se aproximou e abotoou o casaco de Ellen, que continuava aberto, olhando-a com afeio. Essa atitude gentil a fez suspirar, e um gemido escapou-lhe, traindo suas emoes, violentas demais para o momento.
Peter voltou para seu assento e tentou quebrar o silncio falando do episdio da televiso que a pegara desprevenida. Estava achando engraado, at se dar conta de que ele tambm estivera sob os holofotes, e seria notcia, tal qual ela.
Um arrepio percorreu a espinha de Peter ao relembrar a ltima vez em que estivera frente a frente com um microfone. Isso o fez pensar de novo em como era fundamental preservar sua intimidade, seu anonimato.
J tinha aprendido quanto pode ser desastroso estar  merc das pessoas. Ou, sendo mais claro, das mulheres.

CAPITULO IV

O fogo ardia na lareira, e Ellen parecia 'hipnotizada  pelas  labaredas.   Exausta, mastigava um sanduche automaticamente.
Estavam de volta  cabana havia algum tempo. Toda a movimentao em torno do resgate da famlia a esgotara, e mesmo agora, sabendo que todos sobreviveriam, no conseguia conversar com naturalidade. Respeitando-a, Peter no parecia se sentir incomodado com mudez prolongada de sua hspede.
	Desculpe-me pelo incmodo de mais uma noite.  Ellen quebrava o silncio, afinal.
	No  incmodo nenhum.
"Na verdade, apenas deixa meus nervos em frangalhos, Elen querida."
A ateno dela se voltou de novo para as chamas da lareira. S agora tinha noo do que fora o acidente, e se sentia estarrecida com a imagem dos escombros do avio, das pessoas feridas. Era impossvel tirar a cena da cabea.
Peter, embora tentasse disfarar, s conseguia ver diante de si o olhar apavorado que o pequeno Phillip lhe dirigira ao sair do avio.
Ellen, gostaria de saber o que est acontecendo com aquelas pessoas neste momento.
Os boletins do hospital eram tcnicos demais para saciar a necessidade deles de informaes. Depois daquele dia, compreendiam estar para sempre ligados uns aos outros. Seres humanos sensveis como eles criavam vnculos afetivos depois de atravessarem juntos experincias traumticas.
 hora do noticirio, Peter, poderemos saber mais. Aquela reprter parecia determinada a conseguir informaes.
Alguns detalhes do comportamento de Peter j demostravam sua averso  publicidade e  mdia, no fora difcil para Ellen deduzir isso.
Ellen se referia ao programa do rdio, portanto foi uma surpresa quando Peter atravessou a sala e abriu um armrio, onde se escondia um televisor moderno.
Confesso que no gosto de assistir, mas acho que hoje abrirei uma exceo.
Com o controle remoto na mo, Peter passeou entre os canais disponveis. A recepo era prejudicada pelo tempo.
Ellen levou um choque quando, depois de alguma procura, foi brindada com sua prpria imagem no vdeo. L estava, em rede nacional, com Clara nos braos. A enfermeira e a mdica, depois ela, tambm responderam  reprter.
Para alivio de Peter, sua imagem estava desfocada, e apenas Ellen aparecia. Ningum tinha seus nomes, e eram identificados como "um casal das montanhas".
Despreocupado, assistiu ao resto da reportagem. Os pais das crianas eram John e Brenda Pryess. John era piloto no Canad. Por milagre, todos os quatro estavam fora de perigo e j ao lado de seus familiares.
Ellen rezou baixinho durante toda a transmisso e, ao trmino da matria, no conteve o pranto.
	Graas a Deus!
	Foi mesmo muita sorte, Ellen.
Sorrindo, depois de horas de silncio, Ellen parecia outra pessoa. A sensao de ter ajudado a salvar vidas era to boa! Num assomo de bom humor, cutucou Peter e brincou:
Admita, somos uma grande dupla, hein?! Ou melhor, trio. Desculpe-me, Banner.
Banner rosnou ao ouvir seu nome, e Peter estranhou a repentina mudana de conduta do lobo, bastante amistosa. Peter gostou disso muito mais do que poderia admitir.
Quando seus olhos se encontraram, Ellen baixou a cabea, encabulada. Mas, ao vencer a timidez e encarar Peter, teve a sensao exata de mergulhar num dia de vero, num cu sem nuvens. Nenhum outro homem produzira tal efeito sobre ela. O poder daquele olhar era to intenso que pareceu a Ellen estar sendo tocada por ele.
As mos de Peter estavam prontas para tomar aquele rosto de anjo quando um rudo estrondoso os assustou, e luzes acompanharam o tremor das janelas. Banner se ps a latir feito louco, e o momento mgico se perdeu para sempre.
Refeitos do choque, foi fcil perceber que um pequeno helicptero era a causa da turbulncia.
Ao sarem para o alpendre, foram interceptados pela jovem reprter do hospital, que bradava:
Vocs so notcia de costa a costa nos dois pases, no podem se fugir disso.
Enfurecido, Peter correu para dentro e tentou fechar a porta atrs de si. A reao violenta e inesperada dele no foi suficiente para amedrontar a jovem. Ao ouvir que estavam sendo transmitidos ao vivo, ficou ainda mais furioso.
	No foi fcil ach-los. As estradas esto bloqueadas, e foi uma faanha conseguir um piloto que aceitasse pousar aqui. Eu e o povo americano merecemos uma histria com final feliz.
	Vocs j tem a famlia toda a salvo, o que mais quer?  Ellen gritou.  Mostrem fotos das crianas.
	Prometo no usar seus nomes, por favor...
Estamos em cadeia nacional  avisou o cmera.
Com o microfone diante de Peter, a reprter comeou:
Estamos aqui com o casal herico que resgatou da morte toda uma famlia. Conte-nos tudo. Foi graas ao lobo que chegaram l?
Peter estava muito plido. Tenso, sua expresso parecia a de uma fera enjaulada.
	Sim. E quem entrou no aeroplano foi Ellen.
	Ellen, como foi?
Confusa e perturbada, ela olhou para Peter pedindo socorro. Foi o bastante para que ele se sentisse  vontade para fazer o que desejava.
	Chega! Saiam daqui ou chamarei a polcia. Isto  propriedade particular, e o que esto fazendo  invaso de privacidade. Fora!
Banner entendeu o que Peter estava dizendo e comeou a rosnar com ferocidade para a equipe de televiso, amedrontador.
	Por favor, apenas duas palavras...
Mas a ira de Peter fora despertada, e nada o fana mudar de ideia. No fora fcil escapar uma vez, no o pegariam outra vez.
No sem dificuldade, conseguiram fechar a porta, isolando os intrusos. Por algum tempo ainda, ouviram batidas na porta, mas no demorou para que o helicptero decolasse e o silncio recasse sobre ambos como uma bno.
Mas a tranquilidade no durou nem quinze minutos. Estridente, o telefone tocou com insistncia. Zangado, Peter atendeu, decidido a colocar um ponto final na ousadia daquela jornalista.
Mas, para seu dissabor, uma voz educada e feminina o desarmou.
	Senhor, gostaria de falar com minha filha Ellen Reesev Ela est?
	 para voc, Ellen. Acho que causei pssima impresso a sua me...
Ellen atendeu.
	Querida, seu pai e eu acabamos de v-la na televiso. No sei o que dizer... Voc est bem?
	Estou tima, mame. Peter  meu amigo e um cavalheiro, e o lobo no passa de um cordeiro, certo?
	Ellen, a reprter insinuou que voc e esse rapaz tm uma relao amorosa... bem... pouco recomendvel.
De repente, o moralismo de Ruth Reese irritaram-na sobremaneira. Aquele jeito hipcrita de ver as coisas pela soou muito mal a seus ouvidos.
	Mame, por favor...
	Certo, voc tem quase trinta anos, deve saber o que faz. Mas pense no que seu noivo vai dizer. Charles no pra de ligar, e eu tomei a liberdade de dizer que voc estava na casa de uma amiga. O que devo falar agora?
	A verdade. Que estou com um amigo e me oferecicomo voluntria para procurar um avio perdido.
	Bobagem! No vou destruir seu futuro dizendo um absurdo desses para Charles.
	Mame, Charles no pode reclamar de nada depois do que fez. Se algum ps nosso futuro em perigo foi ele!
Peter adorou ouvir isso, mas tentou manter o sangue-rio.
Meu amor, Charles  um excelente partido, pense nisso.
Antes de perder a compostura, Ellen pediu para falar com seu pai. Ele ao menos parecia racional.
	Oi, amor, tudo bem? Desculpe sua me, s o que ela quer  v-la feliz.
	No mais que eu, pai.
De longe, Peter e Banner ouviam tudo. De sbito, passou pela cabea de Peter se Charles seria mesmo o melhor para Ellen. "Isso no  de minha conta. Essa garota sabe se cuidar sozinha."
	Filha, Charles  um bom rapaz.
	Charles no  perfeito, papai.
	Ellen, ningum . Se sua me fosse brava assim, voc jamais teria nascido.
O tom de voz de Simon Reese era infinitas vezes mais sensato que de Ruth, por isso Ellen achou que no faria mal pensar a respeito do que ele dissera.
	Papai, conversaremos assim que eu puder voltar para Boston. Boa noite e tranquilize mame.
	Querida,  o que tenho tentado fazer nos ltimos trinta e cinco anos.
Ellen desligou o aparelho, rindo. Adorava seu pai, e o admirava tambm.
Peter se conteve de fazer consideraes sobre o que ouvira da conversa telefnica. Precisava ter claro que no devia se envolver.
	Ento seus pais viro at aqui para livr-la de mim?
	Claro que no. Voc ainda no me conhece bem.
	Fico feliz de saber.  Peter queria mudar de assunto, mas no conseguiu.  Parece que eles temem o que Charles pode pensar.
	Ambos acham que essa  minha ltima chance de deixar de ser solteira. Solteirona, melhor dizendo.
	E qual  sua opinio a respeito? Pareceu disposta a romper com esse noivado.
	No sei mais. Quero um marido e uma famlia, e no posso negar que Charles  gentil, educado e parece que seria um timo marido. Ou parecia.  Nesse ponto da conversa, Ellen desviou o olhar para a lareira, e sua voz perdeu o vigor.  Mas tambm  humano. Talvez eu seja severa demais comigo e com o resto do mundo. Pode ser que seja a hora de repensar e perdoar fraquezas humanas. Comecei a perceber que estamos todos sujeitos  fraquezas...
	E, pelo jeito voc ama o rapaz e precisa achar urna maneira de perdo-lo e correr de volta a seus beijos.  No fundo, ao dizer isso, Peter esperava ouvir dela uma veemente negativa.
Mas frustrou-se. Ellen era por demais equilibrada.
Pode ser.  Ellen s queria encerrar a discusso.
Estava muito confusa para saber o que dizer.  Desculpe-me, mas vou me deitar. Estou exausta. Boa noite.
Ao v-la fechar a porta, Peter abriu o livro que estava lendo, mas no conseguiu ler duas palavras sem que a figura de Ellen voltasse a ocupar sua mente. "Ela ama o noivo, seu idiota. Tire-a da cabea ou se arrepender." Repetiu essa frase para si mesmo at cansar.
Ellen j estava havia algum tempo na cama, e, mesmo com os olhos fechados e exausta, no conseguia conciliar o sono. No podia deixar de pensar na reao de Charles ao noticirio. Por fim, se convenceu de que, fosse como fosse, no tinha nada a fazer a respeito. 
Uma dor de cabea alucinante despertou Ellen, mas o quarto escuro e o relgio marcando trs horas a convenceram a continuar dormindo. Era insuportvel a dor e, meio s cegas, resolveu sair  procura de um analgsico.
No foi difcil encontrar o que procurava no armrio do banheiro. Engolindo duas aspirinas de uma vez, Ellen aproveitou para usar olhar seu reflexo no espelho. Achou-se horrvel. Para seu prprio conforto, escovou os dentes e os cabelos. Nada disso faria desaparecer as olheiras que a deixavam abatida, porm.
Nada a fazer a no ser voltar para a cama, e foi o que Ellen tentou fazer.
Voc est bem?
A voz de Peter a despertou da sonolncia, e, no momento em que o viu, de p no mezanino, torso nu, s de jeans, um arrepio de excitao a percorreu. J vira muitos homens na vida, mas nenhum to viril quanto aquele. A fala ficou presa em sua garganta por segundos, e foi com dificuldade que respondeu:
	E uma dor de cabea.
	Quer uma aspirina?
O tom de voz dele quebrou a fascinao momentnea.
J tomei, no precisa se incomodar.
Peter no era de todo insensvel. E seu desejo era tamanho que s pensava em poder tom-la nos braos e deslizar devagar seus dedos em cada curva daquele corpo. Ellen fazia seu sangue correr mais rpido que nunca. , Peter estava sozinho fazia tempo demais...
Ellen, perdoe-me. Sempre sou como um urso quando acordo. No queria ser rude.
Comparar-se a um urso era muita bondade da parte dele. Na realidade, Peter se assemelhava a um ogro na maior parte do tempo. Mas um ogro muito atraente, tinha de admitir. O peito nu era belo como de uma esttua grega, msculo como os heris mitolgicos. Em sua imaginao, Ellen corria os dedos pelas espduas perfeitas e alisava cada milmetro do trax at alcanar a nuca, e mergulharia ambas as mos na cabeleira negra e perfumada enquanto seus lbios tocariam com suavidade aquele perfil guerreiro.
Perturbada com sua prpria fantasia, Ellen enrubesceu. Precisando espantar aquela viso, disse:
No sou exatamente uma doura ao acordar. Compreendo voc.
Algo a impedia de sair do lugar onde estava. A fora magntica daquele homem a prendia ao cho, e no lhe permitia desviar-se dele. Viu-o descer as escadas e vir em sua direo, mas seus msculos se recusavam a responder a seus comandos.
Por sua vez, Peter avanava em direo a Ellen a contragosto. Todos os nervos o avisavam para parar, mas uma fora maior o impelia para junto dela.
Aprendi uma tcnica com os esquims para isolar a dor, Ellen. Alguns toques na regio do pescoo e ombros, e ela some. Quer tentar?
Ellen disse a si mesma que devia agradecer e voltar para a cama naquele instante. Porm, ignorando sua prpria ordem, continuou ali, plantada. A ansiedade tirava-lhe o flego, pois todo seu corpo ansiava pelo toque de Peter.
Por que no?
Os poucos metros que os separavam foram suficientes para que Peter pensasse no perigo a que estava se expondo e tambm decidisse que valia a pena.
As, mos grandes e speras dele eram muito hbeis, indo e vindo em movimentos circulares pelo dorso e nuca de Ellen.
Isso  muito, muito bom...  disse ela.
Em poucos minutos, Peter sentiu-a bastante relaxada, e sabia que era hora de parar, porque sentia em seu prprio corpo os efeitos da pele macia e perfumada, extasiando-se com a vibrao que Ellen despertava.
Voc devia ser massagista...  ela murmurou, cada vez mais entregue aos cuidados dele.
Aos poucos, a cadncia dos movimentos deixava de ser teraputica para avanar em outro terreno, muito mais prazeroso para ambos. Por isso. quando as mos de Peter avanaram, EUen sabia que deveria afastar-se, mas, mesmo assim, no o fez, preferindo esperar pelo que viria a seguir.
Cingindo a cintura delicada, Peter a trouxe para junto de si. num gesto suave, e carregado de erotismo. Com vagar e receio, Peter alcanou a curva dos quadris, coxas, pernas, at que Ellen deu um passo atrs, e seus corpos se colaram. E a barba roava sua nuca, arrancando arrepios.
	A dor passou...  A voz rouca de Ellen a traiu, Que bom...
Peter esperou que ela se afastasse. Mas isso no aconteceu. E, antes que a indeciso dele deixasse escapar o momento mgico, Eilen se virou para ele, e, no segundo seguinte, Peter a tinha nos braos. Ou melhor: as pernas dela o tinham enlaado. E aquelas curvas e lbios passaram a ser devoradas por seus dedos vidos. Atravs do tecido fino, Peter tornou-lhe os seios, acariciando-os.
O gemido lascivo e provocante de Ellen deu dimenso ao desejo de ambos. Imersa na sensao inebriante de sua feminilidade, Ellen deixou-se guiar por seus instintos. Lnguida como uma pantera, se movia com sensualidade contra Peter, provocando-o ao ponto mximo de sua virilidade.
Instado por Ellen, Peter percorreu com a lngua seu pescoo, arrancando-a da razo. Os limites de Peter impediram que prosseguisse no xtase, mas Ellen desatou o n de seu roupo, querendo ter explorados com as mos e com a boca os tesouros de sua intimidade.
Os olhos de Peter no violaram a nudez de Ellen, mas a gentileza dos dedos e lbios de Peter encontraram a pele intocada dos seios, e encorajado pelos sons que ouvia Ellen emitir, foi explorando os mamilos. Ellen o guiou atravs de suas formas e mostrou-lhe como chegar a regies inexploradas.
Afastando as pernas para dar passagem livre s mos dele, Ellen sentiu a presso da masculinidade de Peter contra seu ventre. A excitao dele e seu desejo por Peter despertaram-na para o que estava prestes a acontecer. A ideia de ser virgem at o casamento, numa frao de segundo, desapareceu.
A respirao ofegante, ansiosa, e a reao a cada um dos carinhos eram sinais mais que objetivos para que Peter soubesse o que Ellen esperava dele. Ou deles. J estava vendo os dois juntos na cama.
"Virgem!" A palavra apareceu a sua frente em letras garrafais. Num misto de orgulho e volpia, desejou-a ainda mais.
Mas a segunda coisa que surgiu em seu crebro foi a ideia da responsabilidade. Por capricho, poderia arruinar a vida de uma mulher. Durante anos, Ellen se guardara para um noivo, um rapaz todo certinho e para uma noite de npcias. Ela estava frgil demais para poder responder a algo to srio e sem retorno.
Nem ele mesmo soube como reuniu foras para o que fez a seguir. Segurando-a pelos ombros, fitando-a direto nos olhos falou:
 Eu lhe garanti, ao chegar, que estaria segura aqui. Sou um homem de palavra, portanto, voc deixar este lugar do mesmo jeito que entrou: virgem.  Dito isso, correu escada acima.
Estupefata, Ellen se viu sozinha de repente, como se acordasse de um sonho, sem saber que, enquanto isso, Peter apertava os maxilares e cerrava os punhos para se conter e no voltar atrs.
"Essa foi, sem dvida, a deciso mais difcil que j tomei." To dura que Peter no a tomaria duas vezes, e, se fosse necessrio, deixaria Ellen na cabana sozinha, mas no passaria mais nenhuma noite a seu lado.
Foram necessrios alguns minutos at que Ellen conseguisse superar o choque e voltar para o leito. Entre a frustrao e a incredulidade, seu esprito oscilava. No apenas por Peter, mas por si mesma. Afinal, estivera a um passo de entregar para um estranho aquilo que negara a seu prprio noivo.
Era mais que hora de voltar para Boston e para seu territrio, onde reencontraria o equilbrio. Nem que precisasse deixar o carro e usar um helicptero para sair dali.
Na solido do quarto, no se furtou a dar duas voltas na chave, como se assim pudesse isolar as sensaes que acabara de ter.
Nunca sentira aquilo com nenhum outro homem. "S pode ser por causa da briga com Charles. Estou vulnervel."
Mas, sob as cobertas, seu corpo ainda sentia em brasa cada uma das carcias recentes. Embarcando em suas prprias fantasias e lembranas, EUen reconstituiu cada detalhe de Peter. As mos, o nariz gelado, a barba espessa e sensual roando seu rosto... Um tremor tomou-lhe o corpo, respondendo com intensidade indita aos estmulos erticos.
Chega!  ordenou a si mesma.
E, cheia de escrpulos, tentou raciocinar com frieza, a fim de encontrar uma explicao para tudo aquilo.
Adormeceu agarrada ao travesseiro, pouco tempo depois, com duas certezas: tinha de sair dali de imediato e seu ressentimento contra Charles ainda era muito forte. Ao se juntarem  mesa do desjejum, ambos ansiavam por esquecer o episdio da noite anterior, e portanto foi um alvio mtuo quando se comportaram como se nada tivesse acontecido. Em especial Peter, que nem ao menos deixou-se trair por um olhar.
Porm, Ellen no foi to competente. Ou melhor, fez ou fazia questo de colocar as coisas mais s claras. Sem aviso, assim que pde, tocou no assunto:
	Muito embora lhe seja grata por no ter se aproveitado de mim... Estou longe de ser uma devoradora de homens, mas, para ser honesta, gostaria de saber o que houve de errado.
	Passou-me pela cabea que voc poderia estar se vingando de Charles, desejando faz-lo sentir o mesmo que voc sentiu.
	Talvez estivesse certo, mas no me julgue com tamanha severidade. Por favor, no tome isso como uma ofensa, mas no era uma boa hora.
	No diga mais nada, Ellen, sei como se sente. Foi para evitar que houvesse arrependimento ou coisa semelhante que fiz o que fiz.
	Obrigada por sua compreenso.  Sorriu, tmida, e comeou a comer.
Peter a imitou, mas o que Ellen chamou de compreenso era uma enorme frustrao. Seu nico recurso foi dizer a si mesmo que devia correr at a cidade, para o caf onde uma jovem e atraente garonete sempre lhe endereava olhares bastante eloquentes. Era mais que hora de marcar um encontro romntico.

CAPITULO V

	Pelo que posso notar, o que o traz at aqui no  nada bom.
Peter olhou para a mulher que estava do outro lado do balco, e seus olhos encontraram nela uma simpatia adorvel e bem-vinda.
Duas horas antes, conseguira que Jsper colocasse El-len e seu carro de volta  estrada que a levaria a Boston e aos braos do noivo. A despeito de sua resoluo firme de tocar adiante a vida assim que a pusesse no asfalto, e da bela garonete a sua frente, sua memria no o deixava esquecer a bela hspede dos ltimos dias.
Bobagem. Linda, estou apenas preocupado com um amigo.
Abrindo um sorriso encantador, Linda o cutucou.
Se quer falar, esta  a hora ideal. Como v, no estou com pressa.
Observando ao redor, Peter constatou que no havia mesmo ningum mais no lugar. Ainda assim, relutou.
Na verdade, no h muito para falar.
Linda arriscou um palpite.
	Esse amigo seria, por acaso, uma jovem que estava com voc na televiso?
	Ela no tem nada a ver comigo.  Como Peter queria se convencer disso!
	Pena, hein?!  Suspirou, desapontada.  Eu  que tenho o que lamentar, isso sim. Afinal, tinha esperanas de que voc fosse o homem dos meus sonhos, mas, pelo que vejo, algum foi mais esperta.
Peter queria mergulhar na xcara de caf que tinha nas mos. Sentia-se um estpido. S um idiota como ele para se encantar com uma mulher comprometida.
Entendeu errado, Linda, no  essa relao que imagina. Conheci aquela moa no meio da estrada, morrendo de frio, e salvei-a de se congelar. S que por isso me sinto responsvel por ela.
Linda tomou-lhe a mo, dizendo, enftica:
	Todos ns cometemos erros, acredite. Eu mesma sou a prova disso. Dois maridos, dois enganos. Minha me me avisou, mas eu estava sempre  procura do "homem perfeito". Resumo: hoje em dia, apenas ouo meu corao, e posso garantir que tenho mais momentos bons que ruins. Todo o mundo aprende, cedo ou tarde.
	Est certa. Ellen  adulta, tem de viver por si s.
	Lembre-se de uma coisa, Peter: quando achar que est livre, pode me avisar.
	Farei isso. Obrigado.  E despediu-se.
Porm, nada lhe tirava da cabea que Ellen podia estar precisando de ajuda para evitar cometer um erro imenso. Ela insinuara que seus pais a viam quase como uma solteirona e Charles como sua nica oportunidade. Talvez algum devesse examinar a situao com mais cuidado.
Ellen deu por terminada sua misso no momento em que deixou o hospital onde estavam os Pryess, as vtimas do acidente de avio.
Encontrou-os bem, cercados pela famlia, os avs mimando as crianas, e. para sua alegria ser completa, soube que um annimo milionrio se sensibilizara com o que houvera e mandara um cheque para a compra um novo avio, para que os planos do casal fossem adiante.
Agora era hora de retomar a vida que ficara para trs, desde que deixara Boston. Ento, a presena de Peter se imps em sua mente, sobretudo sua expresso aliviada por v-la partir.
	Aposto que nunca mais nossos caminhos se cruzaro...  falou consigo mesma enquanto voltava para a estrada.
Exausta era pouco para descrever o estado de Ellen ao transpor o umbral de seu apartamento. A viagem fora terrvel em vrios aspectos, por causa da longa distncia e da neve acumulada, do mau tempo e de seus pensamentos que no a deixaram em paz.
Ponderar a relao com Charles, por um lado, fazia-a recordar atitudes gentis e carinhosas; mas, por outro, a lembrana da moa seminua em seu apartamento era intolervel.
Cheia de dvidas e ressentimentos, Ellen avistou a secretria eletrnica sinalizando os vrios recados que a aguardavam. Jogando no cho sua pouca bagagem, acomodou-se numa poltrona e apertou o boto da mquina. Na mesma hora a voz de Charles encheu a sala.
Ellen, precisamos conversar. Eu te amo, acredite. Aquilo foi um momento de fraqueza, no deixe que isso arruine nosso futuro.
A mensagem seguinte era de sua me.
Ellen, Charles ligou procurando por voc. O que houve, minha filha?
Fora timo ter ligado para seus pais da cabana, ou os teria deixado malucos de preocupao. Continuou ouvindo os recados. Todos os cinco eram de Charles, e o teor era sempre o mesmo: desculpar-se e reafirmar o quanto a amava.
Ellen se acomodou melhor na poltrona e fixou o olhar atravs da porta de vidro que separava a sala da varanda. A vista era bonita, mas nem se comparava ao cu deslumbrante das montanhas. At as estrelas pareciam brilhar menos ali.
Nunca pensou que sentiria falta da companhia de Peter. Porm, de repente a solido a fez pensar nele e em Banner. Sentia saudade dos dois, e constatar isso a fez estremecer.
Tentando banir a imagem deles da memria, Ellen se concentrou no que tinha a fazer. Devia ligar para Charles. Mesmo sendo um pouco tarde, era o que precisava fazer.
At porque, se uma mulher atendesse ao telefone, estaria tomada sua deciso, no precisaria se torturar mais com isso. No entanto, teve de deixar de lado essa ideia. No momento em que ouviu-o do outro lado da linha, percebeu que a raiva era forte o suficiente para deix-la sem voz. S lhe restou desligar o aparelho sem dizer uma palavra.
O bom senso a aconselhou a esperar pela manh seguinte. Afinal, sua ltima experincia com atitudes no-turnas no fora das melhores.
Carregou suas coisas para o quarto. L sobre a cmoda, ainda refulgia o imenso brilhante de seu anel de noivado. Na fria de abandonar o apartamento de Charles naquela noite, se esquecera de devolver a jia. Quando se dera conta de que ainda o carregava no dedo, tivera mpetos de voltar l s para atir-lo no rosto de seu noivo, mas, entre isso e ter de ver Janet de novo, se contentara em abandon-lo ali.
A viso do anel abandonado trouxe  tona uma gama enorme de emoes, e Ellen precisou correr para o banheiro para no vomitar no carpete. Mais um motivo para deixar para o dia seguinte seu encontro com Charles.
Um banho, duas xcaras de ch e o aconchego dos lenis foram suficientes para que o sono-no tardasse a chegar.
A manh seguinte encontrou Ellen bem mais racional. Conhecendo a si mesma, preparou-se para o que tinha pela frente. Em sua carreira profissional, conheciam-na pela eficincia e habilidade em enfrentar desafios, de forma que decidiu encarar a conversa com Charles como se fosse uma reunio de negcios. E, para essas ocasies, tinha por hbito usar alguns pequenos truques. Era o chamado "arsenal de batalha".
Acordou cedo, banhou-se demoradamente, lavou e secou os cabelos, fez uma mscara de beleza. Teve o cuidado de usar a mesma fragrncia de Chanel em todos os cosmticos, desde o sabonete, hidratante, desodorante, xampu e colnia. Pronta a base, vestiu um tailleur cinza reservado para essas ocasies.
S depois de estar maquiada, de meias finas e salto alto, pegou o telefone para falar com Charles. No importava que ningum pudesse v-la. Ellen podia, e era isso o que estava em questo.
Ellen?  Harriet Masters, a secretria dele, demonstrou genuno alvio ao falar com ela.  No imagina o quanto estou feliz por ouvi-la! Charles est intratvel desde que vocs discutiram.
Harriet era uma senhora pouco dada a arroubos expansivos, e tratava o chefe como um beb, uma vez que estava com a empresa desde que ele nascera, quando o pai de Charles ainda ocupava a presidncia.
Bom dia, Harriet. Charles est ocupado?
Para voc, claro que no. S me d um segundo.
Em menos que isso, Ellen ouviu a voz familiar perguntar, aflita:
Querida,  voc?! Est na cidade?
As cordas vocais de Ellen quase se negaram a responder, mas, com esforo, conseguiu dizer, com absoluta frieza:
	Sim.
	Chego a seu apartamento j!
No houve tempo para que Ellen dissesse que no. Gostaria de encontr-lo num local neutro, mas sabia que as chamadas telefnicas eram identificadas e, antes que conseguisse pensar em qualquer desculpa que evitasse que Charles, viesse j era muito tarde.
Foi o tempo exato de caminhar at o quarto, encontrar a caixinha de veludo da Tiffany's e recolocar o anel de volta ali dentro.
Ainda estava admirando o belo estojo com o nome da joalheria impresso em dourado quando a campainha tocou. Na pressa em atender, deixou cair a caixa. Essa foi a sorte de Charles. Tivesse ela em sua mo ao abrir a porta e Ellen a teria atirado no noivo, sem ao menos precisar abrir passagem para ele.
Apanhou-a rpido, mas Charles foi ainda mais gil e passou por ela, enquanto falava aos borbotes:
	Olhe, percebo o quanto errei e no sei como me redimir. Mas farei o que voc quiser...
	Nunca mais vou acreditar em voc.
	Vai, eu sei que vai.  Tomando-lhe as mos.  Todos tm seu dia de fraqueza. Aquele foi o meu. Sei o peso do que fiz. Juro que nunca mais vou colocar em risco nossa relao.
Era sincero seu tom, e em seus olhos lia-se o arrependimento e a culpa a corro-lo, e isso Ellen no podia negar. At o cime era claro quando Charles tornou a falar:
Alis, pelo menos no coloquei minha indiscrio em rede nacional.
Se Ellen ainda tinha dvidas se ele vira ou no o jornal, elas terminaram ali. Bobagem perguntar se acreditara nas desculpas inventadas por sua me. Charles no dava chance de resposta a Eilen.
	Querida, sei que fui o responsvel por tudo o que aconteceu. Porm, precisava escolher um qualquer?
	Nunca houve nada entre mrrn e Peter, e nada nele  inferior.  A raiva voltava a tomar corpo dentro de Ellen.
	Certo, mas sempre achei que seu gosto fosse bastante sofisticado. Aquele homem parece que nunca saiu das montanhas, e mora com um lobo... No sei que tipo
de conversa vocs poderiam ter e, quanto a achar que houve algo entre os dois, claro que nem por um segundo isso me passou pela cabea,
	No houve nada.
	Seus pais me disseram que voc estava com um amigo. Desde quando o conhece?
	Charles, eu menti para no preocup-los. O que houve foi que me perdi no meio da neve domingo  noite, e Peter salvou minha vida. Apesar de considerar minha inoportuna presena um estorvo, foi gentil e cavalheiro CGmigo. O resto voc sabe, houve um acidente, e me prontifiquei como voluntria nas buscas.
	E nada aconteceu mesmo?
	Nada que possa preocup-lo. Eu e Peter somos como leo e gua. Alm disso, no somos to levianos quanto Janet e voc.
A expresso de Charles era de culpa.
	Juro que nunca mais vai acontecer nada parecido, Ellen. Ambos agimos muito mal, sobretudo eu.  Percebendo o olhar de Ellen sobre ele, tornou a jurar:  Nunca mais! No deixe um deslize arruinar tudo, eu te adoro!
Ellen estava tentada a perdo-lo, mas bastou fechar os olhos e rememorar o ltimo sbado para esticar a mo com a caixinha de jia, dizendo:
No posso casar com um homem em quem no confio.
Charles deu um passo atrs.
Admiro voc e, custe o que custar, vou provar o quanto mereo seu amor e sua confiana. D-me uma chance, e no se arrepender.
Ellen emudeceu, mas Charles tocou seu queixo e declarou:
Um amor como o nosso no morre assim. Sei que vou conseguir vencer sua mgoa, pois eu te amo.
Antes que Ellen pudesse dizer qualquer coisa, Charles saiu porta afora.
Ali parada, minutos depois, Ellen ainda sentia o toque suave em seu rosto, quando, atordoada, viu-o voltar.
Querida, tomei a liberdade de dizer a todos em casa e no trabalho que Peter Whitley era seu primo. No quero que por minha causa voc arruine sua reputao ilibada.  E tornou a sair.
Por um lado, Ellen ficou-lhe grata, mas, por outro lado isso, a irritou de demais. No fundo, ao tomar essa atitude, Charles estava preservando a si mesmo, cuidando para que nada pusesse em perigo a moral de sua noiva.
Poucos homens no mundo reagiriam da mesma maneira compreensiva que Charles. A caixa do anel ainda estava com Ellen, pois Charles nem em sonho o aceitaria de volta.
No se passaram nem cinco minutos, e a campainha tocou. Charles devia ter mais a dizer. Irritada, Ellen foi atender. No era ele. No em pessoa, pelo menos.
Ellen deparou com um enorme ramalhete de rosas cor-de-rosa, com um carto, onde se lia: "Eu te amo e quero recomear nossa histria como da primeira vez em que a vi. Mais uma vez posso tentar conquistar a nica mulher por quem me apaixonei. Quero de volta o brilho de seus olhos. Amor. Charles".
Lgrimas escorriam pelo rosto de Ellen. Fora com um buque idntico que ele comeara a tentar conquist-la. Tambm naquela poca era um pedido de desculpas. Charles era vice-presidente da Tucker Inc. e seu papel era conseguir manter o controle da rea de projetos. Numa manh, ele a chamara para cobrar um defeito que j havia sido discutido e resolvido. A culpa do defeito no fora dela, mas a soluo, sim.
Ao perceber o equvoco, Charles mandara rosas, e levara at o laboratrio onde Ellen trabalhava durante a madrugada um jantar completo, incluindo, velas, porcelana chinesa e cristais, confessando temer que, se a convidasse, ela no aceitasse.
O pranto continuava a correr, e a lembrana do belo par que formaram um dia, quando achava que ele era ideal, fizeram-na repensar diversas coisas.
"Ningum  perfeito." Fora ess"e seu mal, exigir perfeio de seres humanos como se eles fossem seus prottipos. O perfume das rosas e o anel em sua mo fizeram Ellen ponderar se talvez no estava sendo por demais intransigente com o mundo, com a vida.
Peter estava  entrada da bela casa do professor Ian Cochran. Eram amigos havia tempos. Embora Ian fosse arquelogo, campo pouco apreciado por Peter, estavam sempre em contato, pois eram muito requisitados seus servios nas expedies. Peter era um dos grandes nomes em sua rea, e o mestre o apreciava muito.
Bastou abrir a porta e dar uma olhada em Peter para que o setuagenrio dissesse:
 Pelo visto, precisamos conversar. O caf est quase pronto.
	Necessito de um favor, Ian. Estou aqui em Boston, mas preciso de uma desculpa para isso.
	J a tem, Sou um respeitvel motivo. Agora me diga quem  a moa.
	No  o que est pensando.
	No deixe que uma m experincia acabe com sua vida Peter.
	Ian, chega. Trata-se de uma amiga que talvez cometa um erro como o meu. Mas no quero que Ellen pense que vim at aqui por ela. Ento, faz de conta que voc me chamou para discutir sua prxima pesquisa.
	Combinado.
	E apenas uma relao platnica, mas me preocupo. Mas assim que estiver tranquilo com relao a Ellen, irei para a Guatemala.
	Peter, quantas vezes preciso dizer que trabalho nenhum substitui um corpo quente ao deitar e um sorriso ao acordar?
	Professor, onde est o caf que prometeu?
A conversa entre eles sempre comeava assim, direta e honesta.
Enquanto era servido, Peter percebeu a paz da presena de Ian, e temeu por seu prprio futuro.
	Espero poder encontrar essa moa to interessante, Peter.
	Acho que no.
	Que pena...
Ellen queria voltar logo ao trabalho, mas havia uma coisa que a incomodava sobremaneira: Janet. A moa era recepcionista da empresa. Ir ao trabalho significava estar no mesmo prdio que ela e Charles.
Mas era melhor enfrentar a situao o quanto antes. Adiar o problema no o faria menor, ao contrrio.
E o dia seguinte estava longe demais para esperar, portanto, Ellen trocou de roupa e se dirigiu para a empresa. Inventaria uma desculpa para estar ali. Um pro-jeto para examinar, por exemplo...
Ao atravessar as portas de vidro, um calafrio percorreu-lhe a espinha, mas EUen sorriu para o guarda de segurana e continuou em frente.
Na mesa da recepo, em lugar de Janet, viu uma senhora grisalha, que se mostrou gentil e sorridente ao v-la com o crach. Em sua opinio, Janet inventara uma desculpa para no estar por ali nos prximos dias. Afinal, todos deviam saber que Ellen estava na cidade.
	Ol!  cumprimentou-a a secretria de Paul Saunders, um dos diretores.  Soube que houve um problema com seu tio, Ellen. Sinto muito. Aquele bonito  mesmo seu primo?
	E, Meu tio precisava me ver, est muito mal.
	Espero que melhore.
	No creio.
	O sr. Saunders me disse que sua licena s acaba amanh. Alis, o que achou da nova recepcionista?
	Para ser sincera, estranhei um povico.
	 temporria, mas pelo menos Janet no voltar mais. Soube por Alice que ela ligou na segunda-feira pedindo para que suas frias fossem usadas como aviso prvio. No vou mentir que estou triste, aquela moa no podia ver um par de calas sem correr atrs.
Ellen no queria ser motivo de comentrios, portanto, alegou que estava com pressa e correu at sua saia. pegou uma pasta qualquer e saiu para o corredor que dava acesso ao estacionamento. Sua mente fervilhava de hipteses desagradveis.
Sempre julgara Charles um homem justo, mas as evidncias mostravam o oposto. Despedir uma moa depois de ter sado com ela era desprezvel,
Aquilo no ficaria sem uma explicao, era loucura, mas no mudaria de ideia. Tinha pego o endereo na lista dos funcionrios, e poria tudo a limpo.
Poucos quarteires adiante e pronto, l estava Janet. Ellen encontrou-a carregando caixas para um automvel. Ellen no pensou duas vezes para abord-la, mas Janet adiantou-se e disse:
	Se veio aqui para perguntar algo, vou logo dizendo que Charles e eu no temos nada. Foi s uma noite, e acabou.
	Quanta generosidade com o chefe que tirou seu emprego...
Janet colocou a caixa que carregava no cho e replicou:
Olhe, entendo que esteja brava com ele, mas no jogue fora sua sorte. Charles  um cavalheiro e a ama. Para voc, foi ele que me seduziu, mas no  verdade.
Na cabea de Ellen queimava a imagem daquela mulher seminua no apartamento de seu noivo. E isso era demais para qualquer uma.
Est de mudana, Janet? Ser o cavalheiro em questo vai coloc-la num local mais aconchegante e discreto?
Janet estava perdendo a pacincia.
Moa, pode no parecer, mas eu tenho amor-prprio. Posso gostar de me divertir, mas tambm sei o que  respeito. Para seu governo, fui eu que pedi para sair da empresa, e estou me mudando para a Califrnia. L, pessoas como eu tm mais futuro e mais presente. O mximo que seu noivo fez por mim foi me dar uma carta de referncias para que possa arrumar um emprego.
Janet no era uma dama em matria de comportamento ou etiqueta. Mais um pouco e Ellen sentiria o quanto seu esnobismo era irritante. Dito e feito. Bastou um sarcstico olhar para que a bela moa despejasse sobre ela toda sua frustrao.
Srta. Reese, a culpa pelo que aconteceu  sua. Esse seu ar intocvel e seu gnio deixam qualquer homem inseguro. Naquele dia, Charles correu atrs de voc, mas j era muito tarde. Olhe, ele  um homem bom, honesto, bonito, rico e que te ama. No jogue a felicidade pela janela por um capricho. E at logo, minhas plantas esto congelando neste frio.
Ellen parecia no ter ouvido uma palavra. Entrou no carro e voltou para a avenida. Em seu ntimo, a confuso era grande. Precisava de algum para culpar.
"Charles parece estar disposto a fazer tudo para me reconquistar." Mas em seu pensamento faltava a frase "para sermos felizes para todo o sempre". Na sua viso, a infidelidade no tinha lugar.
Mas Ellen tambm estivera nos braos de Peter. Confuso e culpa a dominaram. No tinha direito de ser to rgida com Charles depois do que sentira em relao a Peter.
Irritada, determinou-se a se convencer de uma verdade. Peter estava fora de sua vida, e Charles era seu futuro. Pronto.

CAPITULO VI

Decididamente Ellen j travara batalhas demais para um nico dia. De volta ao apartamento, percebeu que a senhora que fazia limpeza duas vezes por semana estivera l. O cheiro de limpeza e as roupas de volta ao armrio denunciavam isso. E, melhor de tudo, na geladeira tinha pasta de atum e po fresco, um mimo que ela adorou receber.
As rosas de Charles tinham sido arranjadas com cuidado em dois vasos, e seu perfume impregnava o ambiente, mas Ellen pareceu no notar.
Correu para seu quarto recm-arrumado e tomou uma ducha para tirar de vez os resqucios da produo matinal. Era uma forma de tentar recuperar sua prpria identidade.
Quando o espelho mostrou a face limpa e os cabelos anelados, Ellen vestiu um jeans j desbotado e uma velha e macia camiseta.
Um sanduche, meias grossas e um antigo seriado na televiso a reconfortaram. Reencontrara a paz. Ento, a campainha tocou, assustando-a. Por uma frao de segundo, lhe ocorreu no atender, mas o toque insistiu, e ela voltou  realidade.
Deparou com um jovem carregando dois imensos buques de rosas, um vermelho e o outro amarelo, ambos de Charles, com cartes amorosos. Mas o rapaz pediu que esperasse um minuto, e mais flores surgiram: um arranjo de rosas brancas e orqudeas, todas de Charles.
Senhorita, por hoje  s  foi o que o rapaz disse ao receber a gorjeta das mos de Ellen.
Todas as flores e palavras indicavam remorso e amor sincero da parte do ex-noivo. Juntando com o que ouvira de Janet, tinha argumentos suficientes para perdo-lo, mas no conseguia.
Perdoar no era seu forte. Nessa hora, s uma pessoa podia ser ouvida e respeitada, pensou Ellen. Nossa me.
Sendo assim, pegou o telefone e discou para Ruth Ree-se, em Kansas City. Ouvir a voz materna foi bom. Logo depois de contar sua volta a Boston, Ellen foi direto ao assunto, e ouviu a opinio de Ruth.
	Charles jurou que no far de novo? Sua av dizia: "cesteiro que faz um cesto faz um cento." Mas, se eu a tivesse ouvido, voc no teria nascido. Se lhe contai' como foi a noite anterior a meu casamento, sei que a farei corar.
	Ento, na sua opinio, fui muito dura com Charles?
	Querida, voc insiste com essa bobagem de esperar pela noite de npcias, portanto d um desconto para um homem jovem e viril, cujo nico deslize foi ser flagrado numa atividade saudvel e que no pode ser praticada com a mulher que ama.
Um silncio penoso se seguiu d outro lado da linha. Ruth aguardou a filha digerir suas palavras.
	Me, foi isso o que Charles me disse.
	Filha, no se zangue com o que vou falar, mas muitas vezes eu e seu pai nos gabamos de sua retido de conduta, mas Charles  um homem, seu noivo, e em sua idade  quase inacreditvel esse seu comportamento, querida. Ellen, oua-me, no existem duas chances de achar algum to cheio de qualidades como Charles, e ainda por cima com amor.
Essas palavras ficaram ecoando na cabea de Ellen mesmo depois que a ligao terminou, minutos depois. Isso e a festa de fim de ano a que ela e Charles haviam comparecido fazia pouco tempo, cheia de luxo, riqueza e sofisticao, na manso dos pais dele, seus futuros sogros.
Estava fora da realidade quando a porta a lembrou da realidade a ser vivida. Deviam ser mais flores de Charles, ou o prprio, reclamando uma posio dela. No podia fugir, mesmo que quisesse. Resignada dirigiu-se  porta, e teve uma das maiores surpresas de sua vida.
	Como voc me encontrou?!  foi sua primeira reao ao ver Peter.
	Seu nome est na lista telefnica. Posso entrar?
	Claro! O que faz na cidade?
	Vim a trabalho, e resolvi dar uma olhada em voc e seu noivo.
Peter parecia to  vontade na cidade quanto na cabana. Ellen no esperava tanta desenvoltura.
	Muito bom seu apartamento, Ellen. Lindo.
Caindo em si, Ellen tentou se recuperar.
	Quer um caf?
	Quero.
Em pouco tempo, Ellen readquiriu o sangue-frio e resolveu ser direta. Aquele homem a deixava desconcertada, tinha de reagir.
	No falou srio quanto a ver meu noivo, falou, Peter?
	Para ser honesto, falei. Tenho medo de que cometa um erro. Pode ser que voc o perdoe. De qualquer jeito quero me certificar.
	Obrigada, mas prefiro julgar por mim mesma.
	 sempre bom uma opinio imparcial, e, de mais a mais, j que salvei sua vida, me sinto responsvel por voc.
	Homens... Aqui voc s causar problemas.
	J sei, a reportagem... Otimo, posso explicar a ele.
	Peter, v cuidar de Banner, mas me deixe em paz. Estou bem grandinha para ter bab.
Olhando ao redor, e notando a profuso de flores, Peter tentou mudar de assunto.
	So de Charles? Coitado! Deve estar indo  falncia.
	Ele  rico o bastante para isso e muito mais. Para seu conhecimento, a Tucker Inc. foi construda pelo pai dele, e Charles est na vice-presidncia. E muito bom com os negcios.
Peter mal ouvia as palavras de Ellen. Estava ocupado demais se repreendendo pela sua prpria estupidez.
	Acho que comeo a entender a situao. Deve ser difcil dispensar um bom partido como esse, mesmo que no seja muito confivel.  Peter estava despejando sua ira contra Ellen.
	Nada disso tem relao com o dinheiro dele, Peter.
No pedi que entrasse em minha vida, mas estou pedindo que saia dela, agora!
	Desta vez voc est certa. Passe bem.
Ambos estavam irritados, e Ellen j estava com a mo na maaneta quando foram surpreendidos por trs batidas na porta. Era o moo da floricultura com mais presentes, desta vez com belos vasos de folhagens, at uma palmeira an. Desconcertado, o rapaz perguntou:
Onde posso colocar isto?
Com o peso do olhar cnico de Peter sobre si, Ellen respondeu com aspereza:
Que tal de volta  loja de onde vieram?
Senhorita, j foram pagas, no posso fazer isso.
Ellen percebeu a indelicadeza e limitou-se a sorrir, indicando um canto.
Desculpe-me, pode pr ali.
O moo tratou de ser rpido antes que ela mudasse de ideia mais uma vez. O sorriso irnico de Peter a irritava cada vez mais.
A tenso entre eles era to grande que nem perceberam quando uma senhora elegante se aproximou da porta entreaberta, fazendo meno de entrar.
Cheguei em m hora?  a sonoridade da voz feminina despertou-os.
Ellen quase desmaiou, ali estava sua futura sogra, Loretta Tucker, me de Charles. Mida, muito bem vestida e penteada, aquela mulher era a mais perfeita traduo do bom gosto e da sofisticao. Loretta jamais toleraria um escndalo. Ellen rezou para que ela no tivesse ouvido o que se passara minutos atrs.
Loretta, eu estava explicando por que Charles enviou as flores...
Mas a ltima coisa que Loretta queria era ouvir o que Ellen tinha a dizer. Sua ateno estava toda voltada para Peter, a quem olhava de alto a baixo.
	No sabia que seu primo a estava visitando.  Estendeu-lhe a mo, simptica.  Sr. Whitley, acertei? Sou Loretta Tucker, muito prazer.
Peter aceitou o cumprimento, pensando que, se Ellen pretendia continuar com aquela farsa, no seria ele quem a desmascararia. Ento, resolveu ir em frente.
	A sensao de salvar quatro vidas deve ser muito intensa, compensadora  disse com admirao a sra. Tucker.
	Sem dvida. Mas no fui s eu que salvei aquela famlia. Ellen estava l, e foi ea quem entrou no aeroplano.
A curiosidade da me de Charles no se limitava a saber sobre o resgate. Na verdade, Loretta parecia perscrutar com os olhos as verdadeiras relaes entre um e outro.
Mas, para surpresa de ambos, em vez de bisbilhotar sobre as histrias familiares deles, Loretta se limitou a sorrir e se desculpar com polidez.
	Querida, me perdoe a pressa, mas s vim at aqui para que soubesse o quanto Charles est mortificado por tudo o que houve. Meu filho no sabe mais o que fazer para reparar o erro terrvel que cometeu. Mas no posso ficar mais com vocs, preciso correr para meus outros compromissos. Espero que voc e meu filho consigam resolver tudo.
Ellen no compreendeu o que estava por trs da aparente docilidade de Loretta. Havia muito percebera que ela era capaz de parecer cordata aos olhos do marido e do filho, sempre acatando suas opinies sem protestar, porm, na realidade, ningum poderia dizer o que se passava em seu ntimo.
Naquele instante, Ellen se perguntava se toda aquela cordialidade seria sincera. Loretta Tucker dava a impresso de estar satisfeita com as escolhas do filho, mas isso no queria dizer muita coisa. Sem saber o que dizer, Ellen forou uma expresso alegre e procurou ser tambm corts.
Foi muito gentil ter vindo me ver, obrigada.
Loretta continuou com aquele olhar dcil. Murmurou um agradecimento e virou-se para Peter, observando-o com interesse genuno.
Talvez possamos nos ver de novo durante sua estada aqui na cidade, sr. Whitley, Vai se hospedar aqui na casa de EUen?
As palavras podiam parecer inocentes, mas no passou despercebido o verdadeiro teor da observao, um tanto cheia de malcia. Se Charles havia se convencido da inocncia de Ellen, o mesmo no se aplicava a sua me. Nesse ponto, Peter achou por bem sair em defesa da honra de Ellen.
No, sra. Tucker. E, como a senhora deve ter notado, eu e minha prima no somos exatamente o que se chamaria de "primos afetuosos". Vou ficar na casa de um antigo professor dos tempos de universidade.
Loretta o examinava com ateno.
	Curioso... Sempre tive a impresso de que Ellen era uma pessoa muito afvel para se conviver. Alis, essa  uma das qualidades que meu filho aprecia nela.
	Ao contrrio de Charles, Peter pode ser bastante rigoroso com as pessoas.
	Digamos que eu apenas aponto os erros que vejo, Ellen.
	Talvez devesse procurar um oftalmologista.  Corando, Ellen se deu conta de que no estavam a ss, e, olhando para a sogra, desculpou-se:  Perdoe-me, Loretta, mas, como v, no conseguimos manter a civilidade por muito tempo, por isso quase nunca nos encontramos.
	A meu ver, vocs tm uma enorme rea de atrito.
 E, com um brilho estranho no olhar, continuou:   surpreendente que tenham conseguido sobreviver um fim de semana inteiro sem se matarem.
Loretta desconcertava Ellen de tal modo que ela no soube o que dizer. Quando viu a ateno se voltar outra vez para Peter, um certo alvio a dominou.
	Frequentei muitos cursos na universidade, Peter. Talvez conhea seu amigo professor.  Ian Cochran.
	Ele leciona arqueologia... Assunto fascinante.  Estendendo a mo para Peter, mais uma vez, agora em despedida.  Por favor, desculpe Ellen. Tenho certeza de que ela no quis dizer aquilo tudo. Quem sabe no podemos jantar todos uma noite dessas?
O olhar significativo que Ellen lanou sobre ele foi suficiente para que Peter no respondesse.
	Peter no pode se demorar na cidade, Loretta. Como deve saber, meu tio, o pai dele, est doente.
A mentira o incomodava, mas no houve meio de escapar dela.
	 verdade, apenas vim fazer uma breve consulta e voltarei para casa. Duvido que torne a encontrar Ellen to cedo.
	Bem, de qualquer forma foi um prazer conhec-lo.
 Sorrindo para ambos, Loretta saiu fechando a porta atrs de si.
	Primo? Tio doente?!  Peter perguntou com voz sarcstica assim que se viu a ss com Ellen.
Com olhar desafiador, ela o encarou.
Eu precisava arranjar um bom motivo para ter corrido para as montanhas sem aviso. Mas a ideia no foi minha. Quando aparecemos no noticirio nacional, Charles inventou essa histria absurda. Estava se sentindo culpado, ento achou melhor manter minha reputao intacta. J lhe ocorreu que podiam pensar coisas pouco lisonjeiras a meu respeito?
Peter apenas comentou com ironia:
	Alm de rico, o rapaz tambm  um samaritano...
	Pode apostar.
	Seja como for, no tenho muita certeza de que a me dele engoliu essa histria de "primo". No lhe passou pela cabea que essa inveno de pai doente soa um pouco melodramtica demais?
	Precisava de algo assim para explicar minha estada debaixo do mesmo teto que voc.
	A mentira tem pernas curtas, no se esquea disso.
Talvez esteja certo, mas agora  muito tarde.
Ellen estava arrependida por ter dito aquilo para Loretta, mas no podia deixar Charles passar por mentiroso para sua prpria me. De mais a mais, Peter fora bem convincente ao representar seu papel, e sem dvida a futura sogra de Ellen se convencera de que nada havia entre os dois. Devia ser grata a ele, mas, em vez disso, estava irritada.
Boa viagem, Peter. Adeus.
E viu-o sair.
Peter estava sentado em frente ao fogo que acendera logo ao voltar para a casa de Ian. As labaredas ardiam na lareira, o que no o impedia de, volta e meia, atiar as chamas, num misto de raiva e impacincia.
Sentia-se um tolo por ter imaginado que Ellen Reese precisasse de ajuda.
	Eu detestaria ser o alvo de toda essa ira que est estampada em seu rosto.  Ian se acomodou em sua poltrona favorita.  Devo supor que Charles no recebeu sua aprovao?
Peter estava to absorto em seus pensamentos que no se apercebera da chegada do amigo. Pego de surpresa, respondeu:
	No cheguei a conhecer Charles. Mas, em compensao, tive o desprazer de deparar com a verdadeira srta. Reese, e, para ser honesto, desejo sorte para Charles. Ele vai precisar.
	Isso est me soando mal.
	Ellen no passa de uma mentirosa, e pior: uma caa-dotes. No acredito que deixei-me enganar de novo por uma mulher!
	Falsa e interesseira? Essas acusaes me parecem um pouco graves para serem feitas assim.
	Bem, se as coisas se passaram como EUen disse, no foi culpa dela. Mas quanto ao resto... Sabe quem  o noivo de Ellen? Charles Tucker, da Tucker Inc. Tudo o que ela pretende  se casar com ele, e parece que conseguiu envolv-lo com esse joguinho idiota. O pobre-coitado no ter chance de escapar.
Ian era a imagem da serenidade, ao contrrio do impulsivo Peter.
	Pensei que era o contrrio, Peter. Pareceu-me ter entendido que era com Ellen, e no com Charles, que voc estava preocupado. Ele no foi flagrado com outra mulher?
	Azar dele. Sorte da srta. Reese, que parece estar se valendo desse pequeno deslize para lev-lo direto ao altar. Aposto que vai atorment-lo para sempre com isso. Ian estava confuso e aborrecido com o destempero do amigo.
Tem certeza de que sua reao no est sendo precipitada? Ou melhor, ser que voc no est colocando em Ellen Reese a raiva de sua primeira esposa? Voc era jovem e ingnuo quando casou-se com Nancy. E tenho srias dvidas se alguma vez voc conseguiu superar a zanga por ter sido trado.
Peter afundou na poltrona como se pudesse se esconder nela.
	Ellen flagrou seu noivo com outra mulher. Isso a magoou tanto a ponto de colocar a prpria vida em risco, Ian. Aposto que se ele no fosse o milionrio que  ela no pensaria em perdo-lo.
	Ou ser que Ellen ama tanto esse homem... ou amou tanto que agora est to magoada que no sabe o que fazer? Algumas mulheres tm sentimentos nobres, sinceros. Minha querida Rachel era uma delas.
Peter tinha o olhar fixo nas labaredas, um tipo de olhar cheio de ira malcontida. Sem se virar, falou:
O que disse sobre Nancy  verdade. Fiquei furioso com ela por ter me trado, mas foi comigo mesmo que fiquei mais bravo. Odiei-me por acreditar em todas as mentiras dela, me senti um idiota. Apesar de tudo o que voc me disse sobre Nancy, continuei cego.
	Nancy era uma mulher e tanto, fascinante.  Ian examinava com ateno as feies de Peter.  Ellen Reese me parece mais do tipo que, apesar de bonita, no est no Olimpo. Claro que no d para confiar na imagem de minha tev.
	Ela  bonita. Quer dizer, nada de estonteante. Seus olhos tm um tom de castanho que nunca vi antes, e seu corpo possui todas as curvas que um homem pode querer.
	Ento est atrado per Elien?
	Estou sem companhia feminina h tempo demais.
	Por acaso Ellen deu mostras de que sente o mesmo por voc?
	Qualquer atrao que haja entre ns restringe-se ao plano fsico.  Vendo o brilho malicioso do rosto de Ian, Peter percebeu o que ele queria dizer.  No, no a levei para a cama. Quase cheguei a isso, mas no tinha certeza se Ellen estaria fazendo aquilo por mim ou para magoar o noivo.
	De qualquer jeito, ela deveria estar muito envolvida com voc.
	Ou talvez apenas querendo descontar o tempo perdido conservando sua virtude enquanto o noivo se divertia com outra.
	Virtude?!
	 isso que voc est imaginando... Ellen  virgem.
Ou ao menos disse que .
	Parece conhecer bem a jovem, Peter.
	Mais que o suficiente.
	Raciocine. Como Ellen pode ser uma interesseira se quase ps seu futuro casamento em risco com voc?
Evidente que Charles no se casaria depois de saber que Ellen entregara a outro o que lhe negara.
Peter contra-argumentou com crueldade:
Uma vez casados, que diferena isso faria? E quem garante que essa no foi mais uma das mentiras dela?
	Bem, depois de tudo isso, o que pretende fazer em relao a Ellen Reese?
	Nada. Ela segue seu caminho, e eu sigo o meu.
Acredita que Ellen conseguiu enganar at Banner? De pois que partiu, ele vive amuado.
	Os animais sabem julgar melhor que ns o carter das pessoas. Quem sabe o lobo no est certo, e voc, errado?
	Chega dessa conversa. Vamos jantar e falar de arqueologia e geologia, e esquecer de Ellen Reese.

CAPITULO VII

Ellen estava sentada, esperando. Em cada fuma das flores enviadas por Charles, cartes a lembravam os bons momentos compartilhados, e em todos, sem exceo, ele a convidava para jantarem juntos.
Charles deveria chegar a qualquer momento, a no ser que sua me tivesse comentado que Peter se encontrava na cidade e isso o fizesse concluir que havia algo entre os dois.
Essa possibilidade devia deix-la preocupada. E talvez deixasse, no dia seguinte ou dali a uma semana. Mas, naquele momento, no era esse o caso. Seria um alvio que o jantar fosse cancelado, independente do motivo.
O perfume das rosas impregnava todo o ambiente. Estaria sendo exagerada ao reagir dessa maneira, deixando que uma indiscrio destrusse a chance de ser feliz para sempre?
Olhando para a roupa que vestia, jeans e camiseta, relembrou sua indeciso a respeito de seu guarda-roupa tomada havia uma hora. Fora difcil se permitir a chance de ficar como estava. Seu normal seria ter se arrumado para sair. Mas fora um longo e cansativo dia, e tudo o que Ellen no queria era sair de casa e encarar as pessoas.
Alm disso, nem tinha certeza de que Charles viria.
Peter se infiltrava em seus pensamentos mesmo contra sua vontade, irritando-a. As flores estavam ali ao lado, e a palmeira tambm, fazendo-a pensar que, se dependesse do sr. Whitley, estariam todas no lixo.
Peter julgara e condenara seu noivo com mais rigor que Ellen. Era o primeiro homem capaz de tir-la do srio com um simples olhar.
No podia se esquecer das suas qualidades, no entanto. Peter as possua, com certeza. Afinal, no fosse por ele, estaria morta quela altura. E tambm estariam mortos os membros da famlia Pryess. Sem contar sua firme declarao de jamais ser capaz de trair uma mulher que estivesse a seu lado. Devia ser fcil dizer isso com tanta convico, j que nunca tinha passado pelo mesmo que ela.
E Charles, viria ou no? Impaciente, Ellen pegou uma margarida do vaso e comeou a despetal-la. Nesse minuto, ouviu a batida na porta. Charles chegara.
	Voc est horrvel!  Ele afirmou, bastante preocupado.  Est doente?!
	Apenas confusa e cansada.  Poucos dias antes, Ellen teria gostado de ouvir isso, em vez de se irritar.
Evitando o carinho dele, afastou-se. Foi o suficiente para que a voz de Charles ganhasse um tom menos complacente e mais irritado:
	Minha me me falou do encontro hoje  tarde com seu "primo". Parece que voc no foi bastante honesta comigo ao relatar o que houve na cabana.
	Nada aconteceu. Peter Whitley est ria cidade para uma pesquisa e, se veio at aqui, foi por sua causa, e no por mim.
	No seria mais fcil dar um telefonema?
	Essa seria uma bno que parece que no mereci.
O homem  desagradvel demais.
	Um momento. O que quis dizer com veio aqui por minha causa?
	Contei a Peter sobre o que aconteceu entre voc e Janet, e ele pensou em ter certeza de que eu no me arrependeria por me casar. Resolveu bancar o irmo mais velho s porque salvou minha vida.
	No acredito que esse sujeito tenha vindo at aqui para me examinar...  o fim! Bem, mame comentou que voc ficou aborrecida com ele.
	Fiquei, sim, pois, quando Peter soube que voc era rico, se ps a me acusar de querer dar o "golpe do ba".
Disse com todas as letras que, no fosse por seu dinheiro, eu j teria me decidido a romper nosso noivado. Mas isso no tem nada a ver com a verdade.
Charles riu, divertido, apesar da seriedade de Ellen.
Claro que no. Logo voc, a mulher mais correta que j conheci...
Ellen foi tomada pela culpa ao ouvi-lo dizer isso, e murmurou:
	Falei uma pequena mentira hoje, no escritrio, Marylin queria saber o que fui fazer em New Hampshire, quase na fronteira do Canad, e falei que meu tio, pai de Peter, estava doente. No sabia o que dizer. Paul disse a todos que concedeu minha licena por uma emergncia familiar. Tambm tive de convencer sua me de que Peter no ficaria muito na cidade por causa do pai, e assim evitar que ela o convidasse para jantar.  Suspirou.  Detesto mentir, sobretudo para sua me.
	Querida, voc foi perfeita. E isso no faz de voc uma mentirosa, apenas uma pessoa capaz de manter as coisas sob controle.
Suponho que sim.
Charles a abraou, protetor.
Assim que superarmos esta crise, vamos esquecer essa confuso toda.
Aquele abrao fez Ellen se lembrar de como fora bom estar naqueles braos antigamente. A sensao de conforto e segurana desaparecera, no entanto. Desvencilhando-se dele, falou com firmeza:
Foi um longo dia, Charles, e estou cansada demais para ser uma boa companhia.
Charles aceitou, contrariado, e, segurando o rosto delicado, olhou-a direto nos olhos.
Estou disposto a perdo-la, Ellen. E imploro que me perdoe tambm. Voc  tudo o que quero.
Ellen gostaria muito de acreditar nisso, mas bastava a lembrana do sorriso em seus lbios ao abrir a porta naquele sbado  noite para a raiva voltar. O choque podia ter afetado sua memria, mas ainda se lembrava do jeito canalha dele.
	Eu quero um marido em quem possa confiar.
	Voc pode confiar em mim. Aprendi a lio.
A frustrao e o mal-estar a dominavam naquele instante. A presena de Charles a incomodava a ponto de ser insuportvel a ideia de ser tocada por ele. Quando sentiu-o se aproximar, lutou para no recha-lo mais uma vez.
Devo estar sendo ingnua. Estamos vivendo o fim do milnio, e continuo a manter padres medievais.
A expresso de cansao era evidente demais para ser contestada por Charles. Ellen exibia enormes olheiras e estava pKda. Gentil, ele a guiou at a poltrona mais prxima.
Chega de pensar tanto. Por hora, me deixe mim-la um pouco. Trarei comida chinesa e vou preparar-lhe um banho quente e perfumado. Depois disso, vou coloc-la na cama para uma boa noite de sono. Amanh, poderemos conversar sobre nosso futuro. Eu te amo e quero me casar com voc.
Assim que entrou na banheira preparada por Charles e sentiu o aroma e o calor da gua envolvendo seu corpo, Ellen fechou os olhos e odiou a si mesma por no conseguir relevar o que acontecera. Mas tambm detestou Charles por ter deixado aquela situao srdida se interpor entre eles.
As lembranas do tempo de namoro preencheram a meia hora seguinte. O romantismo e charme sempre fizeram parte do cotidiano ao lado dele. E no fora difcil imaginar um futuro rseo para ambos e os filhos que viriam. Era capaz de imagin-los numa pose familiar num porta-retrato sobre a lareira.
O mesmo no podia ser dito se o par escolhido fosse Peter Whitley. Em sua imaginao, a imagem da famlia deles se resumiria a crianas usando botinas e, como peter, de jeans e camiseta. E Ellen estaria usando algo simples e largo, sem nenhuma maquiagem. Mal se deu conta de que essa imagem a fez sorrir. E corar em seguida.
Devia estar fora de seu juzo perfeito para pensar uma coisa dessas.
As pancadinhas na porta do banheiro avisaram a chegada de Charles e do jantar. Enrolada num roupo, Ellen saiu para a sala, onde a mesa estava arrumada.
Ficou feliz por poder comer em silncio, sem que isso incomodasse Charles. E mais feliz ainda quando ele pegou o casaco e avisou que a deixaria descansar.
	Querida, por hoje eu perdoo sua ausncia, mas amanh almoaremos juntos.
	Certo. Voltarei ao trabalho, e estarei disponvel por volta das treze horas. Encontro-o em sua sala.
Sorrindo, Ellen foi at Charles, abraou-o e deixou-se beijar, sem oferecer resistncia.
	Devo supor que estou sendo perdoado?  esperanoso, Charles perguntou.
	No, apenas queria saber como seria beij-lo de novo. E no  a mesma coisa de antes.
	Mas ser, tenho certeza.
Despediram-se, e Ellen suspirou aliviada por poder ter um pouco de paz.
Voc tem visita  anunciou Ian.
Peter colocara mais uma acha de lenha na lareira enquanto Ian fora atender a campainha. Ambos estranharam a hora tardia, e estavam curiosos de saber quem poderia ser.
Ao virar-se para a porta, Peter deparou com um homem loiro e bem-apessoado, alto, mais ou menos de sua idade, mas desconhecido. Por sua expresso, a visita no era de cortesia.
	Sou Charles Tucker.
	Sr. Tucker...  Peter estendeu a mo num cumprimento.  Muito prazer. Acho que j sabe meu nome.
Num gesto pouco amistoso, Charles recusou a mo estendida, e, com um olhar gelado, foi direto ao assunto:
	Quero que deixe EUen em paz. Eu e ela tivemos um pequeno problema, mas vamos nos entender sem que ningum precise interferir. Muito menos vinda do senhor. Alis, no fosse por mim, a reputao dela estaria arruinada.
	Acho que est enganado. Foi por culpa do senhor, sr. Tueker, que tudo aconteceu. Ser que j esqueceu?
No canto da boca de Charles, um leve sorriso de escrnio surgiu, mostrando seu lado pomposo e autoritrio.
Sei que a inocncia de Elen pode ser muito atraente, mas vir at aqui atrs dela no foi uma boa ideia, sr. Whitley.
Peter se arrependeu de ter sido generoso com aquele homem irritante, mesmo que a distncia. Resolveu ser to desagradvel quanto seu visitante.
J lhe ocorreu que talvez a ingnua srta. Reese esteja mais interessada em seu dinheiro que no senhor?
Charles deu uma sonora gargalhada.
Bem se v que voc no conhece mesmo Ellen. Um dos motivos principais de am-la  justamente o fato de ser incorruptvel. Concordo,  intrigante, mas, alm de ser bonita, inteligente e culta, Ellen tem muito carter. E por isso vou me casar com ela. Portanto, fique bem longe.
Peter ficou quieto todo o tempo e continuou assim enquanto assistia a Charles Tueker partir.
	Que histria  essa de reputao?  lan perguntou assim que ouviu a porta bater.
	Uma bobagem. Algumas pessoas acham que, j que so canalhas, todo o mundo deve ser tambm. Portanto, ao ver Ellen comigo na televiso, esse sujeito inventou uma histria conveniente sobre sermos primos, eu e ela. Mas parece que o homem est apaixonado mesmo.
	Se ela  to ruim como me disse, Peter, acho que se merecem. No gostei do jeito desse rapaz, olhando voc de cima, julgando-o um brbaro da montanhas ou coisa que o valha. Mesmo que parea um...
Peter retornara  poltrona e parecia pensativo.
Tambm no gostei dele, mas no me agrada ver um homem passar por tolo.
Est se referindo ao sr. Tucker ou a voc mesmo? Peter no comentou nada, como se no o tivesse ouvido.
	S lhe digo uma coisa, Peter. Caso voc esteja enganado quanto a Ellen, sentirei muita pena dela. No sei se percebeu, mas nem por uma vez ele mencionou a palavra amor ao se referir  noiva. O sr. Tucker est se casando com Ellen por ser um desafio conquistar uma mulher que no se rende ao dinheiro dele. Esse homem no quer uma esposa, mas um bichinho de estimao.
	Ellen Reese pode cuidar de si mesma  afirmou Peter, mas j sem tanta convico.
No lhe saa da cabea o jeito dela quando a vira pela primeira vez. E quando falara de Charles na cabana, eram reais seus ressentimentos.
	Talvez tenha razo, lan, estou deixando velhas feridas falarem por mim. Pode ser que seja melhor eu continuar por aqui s por precauo.
	Fique o tempo que quiser. Para mim,  um prazer. 
Loretta Tucker estava sentada  janela de seu quarto de vestir, bebericando um copo de vinho, quando viu seu filho galgar os degraus da porta de entrada.
Sempre que o via, tinha a impresso de estar diante de um homem que tem seu prprio mundo nas mos. Ergueu um brinde silencioso a isso. Charles e o pai tinham muito em comum.
	Me?  Charles estava  soleira, olhando-a.  Julguei que estaria no jantar de caridade esta noite.
	Seu pai tinha compromissos, e eu no quis ir sozi nha.  Forou um sorriso.  Devo presumir que voc e Ellen fizeram as pazes?
	Ela ainda est aborrecida comigo. Vocs mulheres levam muito a srio essa tolice de brigas de amor.
	Voc nunca contou qual foi o motivo da desavena. 
Olhando-a com certa indulgncia, quase irritante, Charles desviou o assunto.
	Nada srio, bobagens.
	Por acaso tem algo a ver com o sr. Whitley?
	No. Ele  apenas uma tolice usada por Ellen, e, de mais a mais, j dei um jeito nele esta noite.
	Posso estar errada, mas o rapaz no me pareceu algum fcil de se livrar.
Loretta tomou mais um gole de vinho para ter coragem de falar com o filho.
	Charles, ser que Ellen  a mulher certa para voc? Sei que no gosta que eu interfira em sua vida, mas tem certeza de que essa moa serve para entrar em nossa famlia?
	A perfeio. E fique longe dela. Ou ser que precisarei reservar uma temporada naquela clnica para voc? Pelo que vejo, voltou a beber.
Era uma ordem, no um pedido, e Loretta entendeu isso. Colocou o copo de lado num sinal de aquiescncia, e recebeu um beijo do filho.
	Boa noite, me.
	Boa noite, filho.
Loretta no beberia mais aquela noite, mas por outros motivos. Precisaria ter a mente clara no dia seguinte.
Ellen se virava na cama, e levantou-se inquieta no meio da noite para poder andar um pouco. Tinha de resolver o que pensava a respeito de Charles e de seu futuro.
As flores e os cartes estavam por toda parte, fazendo-a lembrar-se do quanto era amada por aquele homem, seu noivo.
A acusao de Peter ainda a incomodava um pouco, fazendo-a pensar se haveria um fundo de verdade no que dissera. No lhe agradava a ideia de que pudesse ser comprada por um homem. No negava que adorava as festas e os lugares que frequentava com Charles. Mas tambm admirava o homem que ele era: sincero, capaz e gentil. Claro que aqueles com quem Charles fazia negcios no pensavam da mesma maneira, mas ela no estava preocupada com isso.
As rosas e a palmeira estavam ali para provar a alma romntica que Charles possua. E mesmo quando todas as evidncias estavam ali para faz-lo crer que houvera algo entre ela e Peter, Charles se mostrara disposto a perdo-la, pondo a culpa toda em seus prprios ombros. E eles ainda no estavam casados...
Ellen deveria estar no stimo cu por ter um homem como Charles Tucker a seus ps. Mas, ento, por que no estava?
Exausta para conseguir pensar com clareza, adormeceu.

CAPITULO VIII

Loretta Tucker bateu  porta do professor lan Cochran no meio da manh. Segundo suas prprias palavras, "ia caar o urso em sua toca". Aquele meio sorriso bailava nos cantos de sua boca.
Como estava sozinho na casa, Peter foi quem a atendeu, e no fez esforo algum para disfarar seu espanto com a visita.
Sra. Tucker! A que devo a honra?
Sr. Whitley, posso entrar? Est um pouco frio aqui.
Peter deu-lhe passagem e, sem saber o que fazer, se guiu-a, aps indicar a sala de estar.
No estava gostando nada do jeito como a me de Charles sorria para ele, tentando parecer to amvel e mostrando uma intimidade que no existia. No lhe agradava brincar de gato e rato, muito menos quando ele era o rato.
Loretta, com muita elegncia, acomodou-se numa cadeira e esperou que Peter fizesse o mesmo.
Tenho quase certeza de que Charles veio at aqui ontem para pedir que se afastasse de Ellen, j que parece aborrec-la. Famlias sempre tm seus pequenos confrontos, eu entendo o que  isso. Mas sempre voltam s boas relaes.
	Eu no diria que eu e Ellen temos boas relaes.
	Mas bastou uma pequena rusga entre ela e meu filho para que corresse bater a sua porta. E no tente me dizer que o tio doente  a causa da visita, no nasci ontem sr. Whitley. Ou devo cham-lo de Peter? Charles fez algo que magoou Ellen...
Peter estava mais que nunca convencido de que a sra. Tucker no engolira a histria de ser primo de Ellen. Mas entre achar Ellen uma caa-dotes e entregar para a me de Charles um trunfo contra ela havia uma enorme distncia. Peter no daria munio para a guerra particular travada entre Loretta e a futura nora.
Por outro lado, no lhe agradava a ideia de mentir. Ento, optou por uma meia verdade.
	Ellen no esperava me encontrar na cabana, sra. Tucker. O dono  um velho amigo da famlia dela, que no momento se encontra no Arizona. Mas isso Ellen no sabia, como tambm no fazia ideia de que eu estaria ocupando a casa.
	Entendo.  O olhar de guia de Loretta observava o local.  Gostaria de conhecer seu lobo. Pareceu-me um animal e tanto.
Banner pertence a Jack, e nunca sai das montanhas.
Por algum tempo, Loretta encarou Peter, como se o estudasse com muito cuidado.
Peter, qual  sua ocupao? Sabe como , meu filho em breve se casar com Ellen, e ela far parte de nossa famlia.
Por um momento, Peter lamentou que Ellen fosse se casar com o filho daquela mulher dissimulada. Caso estivesse errado quanto a seu carter, Ellen mereceria um futuro melhor que aquele.
	Sou um gelogo consultor de empresas. Fao relatrios para minerao.
	Sei... E enquanto no aparece um trabalho, costuma ficar na casa de amigos?
Aquilo j era demais. Loretta estava insinuando que ele era um homem sem escrpulos.
	Minha senhora, sou um eidado respeitvel e trabalhador. Se o que a preocupa  o fato de Ellen Reese e eu virmos a manter contato depois do casamento com seu filho, pode ficar descansada. Isso no vai ocorrer.
	Mil perdes, no era minha inteno ofend-lo. Quem sabe nos veremos na cerimnia, caso voc e Ellen voltem s boas? At logo.
Peter a seguiu at a porta e ficou feliz ao v-la entrar no carro, onde um motorista a aguardava. Fechou a porta e voltou a seus afazeres.
Enquanto isso, no automvel, Loretta falava ao celular com algum:
	Preciso de um servio seu. Discreto e rpido. Tudo o que puder saber sobre a vida de Peter Whitley,
	Pode deixar que eu mesma cuidarei disso. Pessoalmente.
Peter cada vez mais tinha motivos para no gostar da famlia Tucker. Aos poucos, foi recapitulando cada detalhe de toda aquela histria. Comeou a pensar que estava sendo apressado em julgar Ellen Reese. Estaria ele ficando muito cnico com o passar dos anos?
Sua memria o levou de volta alguns anos, a Nancy e seu passado com ela. O que sua mulher conseguira fazer com ele era espantoso. Mal se reconhecia no mesmo rapaz daquela poca.
Teria sido to ruim assim para que se tornasse to amargo a ponto de olhar tudo com desconfiana? No estava pronto para confiar em Ellen Reese, mas tambm ningum merecia os Tucker como famlia.
Nem ela. 
Ellen passara a manh toda tentando resolver problemas operacionais com dois motores. Sentada na sua bancada de trabalho, j os montara e desmontara inmeras vezes.
Ali dentro do laboratrio sentia-se bem, segura de si, no seu elemento. Sorriu ao pensar que graas a regulamentos rgidos da empresa se esquivara de precisar pensar se poria ou no o anel de noivado pela manh.
Ali no era permitido entrar com nenhuma jia. Assim. Charles no a aborreceria com perguntas a esse respeito.
A voz poderosa de Paul Saunders a tirou de seu estado de concentrao ao avisar, alto e bom som:
	Hora do almoo.  Ento, olhou para ela.  Charles pediu para que eu lhe dissesse para levar seu casaco.
	J  to tarde?
	Faltam quinze minutos para o meio-dia. E Charles foi muito claro ao dizer que meu emprego dependeria de p-la fora daqui ao meio-dia.
A brincadeira no era to distante da realidade, pensou Ellen. Conhecendo Charles to bem, sabia que sua vontade era lei naquela fbrica, e por muito menos j mandara gente para a rua. Mas no era comum essa insistncia em ter um almoo com ela durante o expediente. Estranhou ainda mais ao ouvir seu chefe dizer:
	No se preocupe com o horrio de volta, certo? Seu noivo  o patro, portanto, se quiser, tire a tarde de folga.
	Paul, no seja tolo...
Saindo para o corredor, Ellen pensou se no estivera cega durante todo o tempo do namoro. Talvez o amor a tivesse impedido de ver Charles como era de verdade. Agora se indagava se no fora por demais benevolente com a tirania dele. Nos olhos de Paul podia se enxergar o medo de ser demitido, e por um simples capricho.
Bobagem. Talvez Paul tivesse brigado com a esposa de manh ou se irritado no trnsito. Podia ser que seu olhar fosse de irritao, e no medo.
Devia estar se preocupando  toa.
Harriet Masters sorriu ao v-la se aproximar.
Charles est a sua espera.
Sobre a mesa de Harriet, Ellen viu um lindo vaso de flores, presente de Charles, que as enviava toda semana. Aquela senhora era muito mais que uma empregada da empresa, era uma espcie de guarda fiel do patro. Qualquer coisa que o aborrecesse tambm a aborrecia.
Voc est linda, querida.  E, dando a volta na mesa para receb-la, Charles concluiu:  No h outra mulher no mundo que consiga ficar bem com graxa no rosto.
Rindo, com um leno na mo, ele limpou as faces de Ellen. Ela no achou graa da brincadeira, como teria achado, decerto, antes daquela noite em que o vira com Janet.
	Suponho que nunca tenha visto Janet assim.
	timo, ponha toda sua raiva para fora.  melhor para ns, e eu mereo isso.
	Nunca perguntei nada de sua vida antes de me conhecer, mas, depois de estarmos noivos, eu esperava que fosse fiel a mim.
	E voc estava certa.  Remorso e dor marcavam-lhe as feies.  Fui um fraco, fiz algo impensado e egosta. Mas, quando voc saiu da cidade, pensei que fosse enlouquecer.
Charles parecia to miservel que Ellen sentiu-se culpada.
Eu tive de fazer isso.
 Entendo.  Charles abraou-a.  Porm, no imagina o quanto fiquei apavorado.
	Sinto muito.
	Vamos, admita que ambos erramos. Eu mais que voc, claro. Mas, toda vez que me lembro de Peter Whitley abraando-a, meu corao di. No me deixe passar o resto da vida me sentindo culpado. Por favor, Ellen, no deixe que nossos planos de felicidade desmoronem por causa de meu erro.
	Eu quero um marido em quem possa confiar  repetiu mais uma vez.
	Sou esse homem. Permita-me provar isso. Sei que voc  justa e boa. Entenda que todos ns erramos uma vez ou outra. Ningum  perfeito.
Foi ento que Ellen percebeu que fora esse seu equvoco: pensar que Charles fosse perfeito. Durante todo o tempo, idealizara-o como um homem ilibado, sem falhas. E, quando o surpreendera sendo apenas humano, sentiu-se trada duas vezes.
	Bem, talvez eu pensasse que voc era, Charles. 
Ele sorriu, conciliador.
	Chega de tanta discusso. Que tal almoarmos?
Charles beijou-lhe com ternura a nuca. Os lbios ainda eram clidos e macios, mas o encanto desaparecera. De imediato veio  mente de Ellen o eletrizante beijo de Peter. Mas a comparao no era justa. Aquela noite tivera outros componentes para tornar-se mgica. E Peter provara ser um homem arrogante e preconceituoso. Jamais poderia inspirar qualquer sentimento real nela.
Vamos, querida.
Ao cruzarem a porta para o estacionamento, EUen ouviu um rudo familiar. L estava um helicptero, esperando por eles.
O dia est lindo e me ocorreu que seria agradvel almoarmos vendo a neve. Vamos at a pista de esqui.
 Charles falava enquanto caminhavam, e Ellen, quando deu por si, estava dentro da aeronave.
Ellen nunca dissera, mas, como nada a desagradava tanto quanto voar de helicptero, continuou calada para no estragar a alegria do noivo.
Podemos descer a montanha depois de comermos. Providenciei um traje completo para voc.
Em outra ocasio, Ellen teria ficado encantada com a surpresa, mas a acusao de Peter de que ela se interessava pelo dinheiro de Charles a incomodava o bastante para tirar o brilho do passeio.
Charles, no posso tirar o dia de folga.
Claro que pode. Eu sou o patro, esqueceu?
Quieta, Ellen viu a terra desaparecer sob seus ps, e em seu pensamento a frase de Charles ecoava. Ser a noiva do patro tinha outra conotao naquele momento, e ela no gostava muito dela. J no ar, Charles perguntou-lhe:
Que tal a vista?
Bonita.  E um arrepio de medo a percorreu inteira.
A curta distncia foi um sacrifcio para Ellen, que manteve os punhos cerrados todo o tempo. Enquanto Charles parecia se divertir muito, ela no via a hora de pousarem. O que no demorou a acontecer.
Meio trmula, tentou manter a compostura ao vencer a curta distncia at o restaurante e aproveitar a companhia de Charles, sempre to agradvel para ela. 
Sentaram-se a uma das melhores mesas, defronte  janela, e logo apanharam seus drinques. Ento, Charles sussurrou em tom romntico:
	Eu assumo. No consigo imaginar minha vida sem voc. Vamos nos casar logo... Que tal passarmos a lua-de-mel em Paris, depois Veneza? Ambas so esplndidas na primavera.
	Nunca estive em nenhuma das duas.  EUen tentou ver a si mesma ao lado de Charles passeando pelas ruas de Paris ou numa gndola em Veneza, e sua tenso aumentou.  Charles, acho que no estou pronta para planejar minha lua-de-mel.
Charles franziu o cenho.
	Nunca pensei que voc fosse to cabea-dura, Ellen. Srio, essa criancice est indo longe demais. Estou me ajoelhando a seus ps. O que mais quer que eu faa?
	Nunca pedi que se curvasse para mim.
	Diga-me o que mais  preciso para que me perdoe.
	No sei.  O remorso explcito nos olhos de Charles a incomodava ainda mais.  Talvez eu esteja mesmo sendo.
Charles voltou a sorrir e segurou suas faces, carinhoso.
Querida, essa  uma das coisas de que mais gosto em voc. E me odeio ainda mais por ter trado a confiana de algum to puro assim.
Ellen olhou bem dentro dos olhos de Charles, de um azul que agora parecia desbotado e sem brilho. Percebendo que os estava comparando aos de Peter, to mais expressivos, teve um sobressalto e desviou-se para outra direo.
	Estou me esforando bastante, no estou?
	Por que no paramos de falar nesse mesmo assunto
e apenas aproveitamos a comida e a vista, querida?
O que Ellen queria era estar sozinha, mas evitar Charles no a ajudaria na tarefa que tinha pela frente. Precisava tomar uma deciso, e talvez estar com ele nas prximas horas fosse bom para isso.
Forando um sorriso disse:
Vou gostar de mudar de assunto.

CAPITULO IX

Mais tarde, em seu apartamento, Ellen -teve de admitir que de nada havia adiantado passar horas ao lado de Charles naquela tarde. A dvida persistia, e suas energias tinham se exaurido nas pistas de esqui e na tenso constante que a companhia do noivo exigia, sem contar o terror vivido durante os voos de ida e volta.
Sentia-se um trapo ao retornarem e, mesmo assim, tivera de esquivar-se do convite para um jantar  luz de velas programado por Charles, incansvel no firme propsito de reconquist-la.
Prova disso eram os trs telefonemas recebidos no ltimos quarenta minutos, todos dele, e a refeio requintada que lhe fora enviada com mais flores.
No momento, essa avalanche de gentilezas s surtira um efeito sobre Elen: faz-la sentir-se horrvel por no ser capaz de perdo-lo em retribuio.
Agora, de banho tomado, enfiada num confortvel agasalho, desfrutava de um pouco de serenidade, saboreando a torta de morango que viera de sobremesa.
Na mesa em frente, desafiador e reluzente, o anel de noivado aguardava sua deciso. Estaria jogando fora a melhor oportunidade que j lhe fora dada? Charles poderia lhe proporcionar a vida que toda mulher invejaria. E depois, essa poderia ser sua ltima chance de se casar. Seno, poderia acabar ficando sem marido e sem filhos. 
Ao ouvir a campainha, foi atender, torcendo para que no fosse nenhuma visita. Ou mais presentes de seu noivo.
Nada a teria feito adivinhar quem era. E,  primeira vista, nem reconheceu as feies, mas aqueles olhos azuis eram nicos. Sem barba, sem bigode e com cabelos curtos e penteados, Peter era outro homem.
	Acho que estou um pouco mudado.  Peter alisou o queixo escanhoado.
	Sim.
Belo no era o termo exato. Os traos bem marcados e msculos tinham uma beleza fora dos padres, formando um conjunto atraente. Ellen reparou tambm que, mesmo sem toda aquela montanha de plos que escondia seu rosto, sua aparncia ainda tinha um qu de selvagem. E sedutora.
Estarei indo para a Guatemala em poucos dias. Ellen, e o clima l  quente demais para ficar de barba. Importa-se se eu entrar?
Planejava passar uma noite sossegada... e sozinha.
Ignorando-a, Peter entrou.
Nem bem Ellen fechara a porta, e a voz de Peter se fez ouvir, num tom quase solene:
Vim me desculpar pelo que lhe disse ontem. Acho que exagerei em meu cinismo.
Fazendo o possvel para evitar que sua mente se fixasse no modo perturbador como a presena dele a afetava, Ellen respirou fundo antes de responder:
Talvez seja precoce esse seu arrependimento.
Surpreso com a resposta rpida de Ellen, Peter esboou um sorriso. Olhavam-se como antes, e a velha camaradagem dava sinais de ressurgir; quando Peter enxergou a jia sobre a mesa de centro. O efeito foi instantneo sobre o nimo conciliador dele, que desapareceu no ato.
	Belo anel, Ellen.
	.
Ao se sentar no sof, os olhos de Ellen observavam a figura de Peter, que continuava em p. As longas pernas e as coxas musculosas reveladas pela cala jeans atiaram o fogo adormecido dentro dela, impedindo-a de raciocinar com clareza.
Aquilo era um absurdo, pensou. Mal se conheciam, e nem mesmo gostavam da companhia um do outro. Ellen procurou olhar para o rosto de Peter. Talvez o encanto sumisse se aquele jeito irnico continuasse l.
"Ellen no passa de uma mercenria, igual a Nancy!" Ento, por que, mesmo assim, tinha mpetos de proteg-la?
Decidiu no devolver o ane?
Ellen se irritou com o tom da pergunta. Mais que tudo, sentia-se insultada.
	Paz alguma ideia de quantas mulheres gostariam de estar no meu lugar, Peter? Charles  bonito, rico e me adora. Ou pelo menos  o que ele declara.
	Voc se esqueceu da parte que deveria lhe dizer respeito: deveria falar de seu amor por ele.
	A  que est o problema!  Lgrimas de frustrao inundaram seus olhos.  H uma semana, eu poderia jurar que o amava. Agora s sinto culpa em relao a Charles. Hoje, por exemplo, me passou pela cabea que ele no era mais que um tirana.
O nico contato que tivera com Charles dizia a mesma coisa a Peter.
Nunca lhe ocorreu essa ideia antes?
Ellen mudou de expresso, mais confusa ainda.
	Creio que estou carregando nas tintas. Para mim, Charles era o homem perfeito, e isso  injusto com ele. Agora estou me comportando de modo infantil, tornando-o  pior do que .
	Ou talvez esteja comeando a enxergar seu verdadeiro carter.
	Peter, voc no o conhece. Charles  um homem gentil e querido. Do tipo que se dedica a caridade e vai  igreja todo domingo.
	Est me parecendo que se trata de um filantropo. No ser exagero de sua parte?
	Quero um marido, filhos, uma famlia. Seria estupidez desperdiar essa chance.
Peter disse a si mesmo que Ellen estava se convencendo a se casar com Charles, e no seria ele quem diria o contrrio. Em ltimo caso, o dinheiro dele poderia minimizar as decepes que, porventura, Ellen viesse a ter.
Estou certo de que estpida voc no , Ellen.
Enterrando as mos nos cabelos encaracolados, Ellen suspirou.
No sou do tipo que  capaz de se convencer de que o amor vem por razes como as que citei. Dinheiro e belas feies no justificam que tenha de haver algo entre duas pessoas. Mas sei tambm que o amor no desaparece do dia para a noite. Meu sentimento por Charles deve estar em algum lugar aqui dentro do peito. S preciso encontr-lo.
Vendo-a to desconsolada, Peter foi obrigado a admitir que a havia julgado muito mal. Ellen estava sofrendo com aquilo tudo.
Sempre h uma outra possibilidade, Ellen.
Olhando-o, esperanosa, fez sinal para que continuasse.
Pode ser que voc desconhecesse o Charles Tucker real, e v-lo com outra mulher a tenha feito enxergar um outro homem por trs daquele charme todo.
Brincando com o anel, Ellen replicou:
O que faz de mim uma ingnua, cega e idiota.
 Algumas pessoas so muito hbeis em disfarar seus defeitos para obterem seus objetivos.
O jeito amargo como as palavras saram da boca de Peter a fizeram pensar.
	Do modo como fala, parece que tem experincia nesse ramo.
	Talvez seja porque tenho mesmo.
O olhar de Ellen foi incisivo ao perguntar:
	Aposto que foi uma mulher. Acertei?
	Minha esposa, para ser mais preciso.
	Esposa? Voc, o bravo e estico Peter Whitley, teve uma esposa?  At ela sentiu um certo cime em seu jeito de falar, e se odiou por isso.
Digamos que ela  que teve a mim como marido.
Pensei que Nancy me amava, mas percebi depois que seu nico interesse era por dinheiro.
A indignao estampou-se no rosto de Ellen ao ouvi-lo.
	Isso explica sua reao ctica quanto ao meus sentimentos por Charles. Sua esposa o trocou por um homem rico e, desde ento, para voc, as mulheres so todas como ela.
	O mundo pode ser um lugar bastante srdido.
	De seu ponto de vista, talvez. E talvez do meu tambm. Posso estar querendo me convencer de que amo Charles para no abrir mo da vida que ele tem a me oferecer.
Pensar nela casada com Charles Tucker azedou a alma e o humor de Peter.
A vida me ensinou que algumas pessoas precisam provar de peixe antes de pedir carne. Em outras palavras, Charles tentou saber se estava certo do que ia fazer.
Ellen no conseguia se desviar dos lbios de Peter, de como era ser beijada por elea, com paixo e fria. Incomodada por no deixar de lado essa obsesso, foi ao extremo:
Voc me beijaria?
Peter no podia crer que tinha ouvido direito. Desejava tanto aquilo! "Essa moa est muito confusa para saber o que diz..." Mas s teve foras para objetar, sem convico:
	No estou bem certo de ser essa uma boa ideia.
	Talvez no seja. Mas estou desesperada. Faz tempo demais que no beijo ningum a no ser Charles.  A desculpa soou imbecil, e a hesitao dele a deixaram insegura.  Esquea o que eu disse.
"Mantenha distncia", Peter ordenou a si mesmo, mas de nada adiantou. A boca linda e as palavras que saram dela tornaram impossvel resistir ao apelo de seu corao. Com a mesma lgica idiota usada por Ellen, Peter falou:
Se vai comprar um produto,  aconselhvel compar-lo para ter certeza.
Juntando-se a ela no sof, tomou-a em seus braos enlaando, todo seu corpo.
As mos de Peter tinham o poder de deixar em brasa a pele de Ellen, acendendo a chama da paixo.
Mal seus lbios se uniram e l estava ela se derretendo. Quando suas bocas se fundiram de verdade, o mundo  volta de Ellen desapareceu, restando apenas Peter.
A medida que os carinhos foram se tornando mais ntimos, Ellen estremecia a cada toque das mos dele. Nunca dera tamanha liberdade para Charles, e agora se via encorajando Peter a continuar... mesmo sem compromisso nenhum.
Aps tantos anos de espera, entregar-se a algum com quem no se casaria era uma insanidade, gritou-lhe a pouca sobriedade que ainda tinha.
Temos de parar!  Ellen afastou-o.
Demorou algum tempo para que o crebro de Peter captasse a mensagem e ele a soltasse. Ellen levantou-se.
	Perdoe-me, Peter.  Ela tremia.  Eu no imaginei... no pensava que... Bem, voc e eu... Ns nem mesmo gostamos um do outro. Para voc, no passo de uma oportunista, e acho-o irritante e preconceituoso.
	Pode ser que tenhamos sido muito duros um com o outro.  Peter ainda tinha o gosto dela em sua boca e continuava com a sensao de t-la em seus braos, tornando dura a tentativa de clarear as ideias.
Ellen mal se sustentava sobre as prprias pernas, tendo de se render ao sof, onde desabou, entre lgrimas e soluos.
	Isso prova que meu corpo e minhas emoes esto fora de controle. Nunca precisei fazer esforo para colocar limites antes. A diferena  que desta vez eu quis ir alm dos limites, desejei voc. Isso  loucura, Peter! Nem ao menos quero me casar com voc!
	H coisas piores que isso. 
Surpresa com a resposta dele, Ellen no pde evitar de ver a imagem de Peter a sua espera no altar. E, para seu desespero, essa ideia no s pareceu correta como muitssimo agradvel.
No foi muito difcil para Peter ler em seus olhos um certo interesse, e, antes que lhe passasse pela cabea tentar algo, qualquer que fosse esse "algo", achou por bem dar um basta. No estava disposto a cometer o mesmo erro duas vezes.
	Acho melhor, para ambos, esquecermos o que houve, Ellen. Voc est confusa neste momento.
Nem bem tinha acabado a frase e j estava fora do apartamento de Ellen, no dando chance para que houvesse uma resposta. Correu para fora do prdio, mergulhando na noite gelada de Boston.
Estava perturbado pela presena de Ellen, que o perseguia ainda. Temia por ela. Tinha medo de que seu casamento com Charles Tucker a fizesse muito infeliz.
Estou agindo como um tolo apaixonado...
Ao retornar  casa de Ian, Peter tinha o cenho franzido, e tremia ao pensar que talvez ela se casasse e fosse feliz. 
Da varanda, Ellen viu o carro de Peter sair do estacionamento e partir pela rua. Era a segunda vez que ele no se valera de sua fragilidade para obter vantagens, mesmo que ningum pudesse recrimin-lo se o fizesse,
A sensao de alvio por sua partida durou um breve instante, sendo logo substituda por um imenso vazio, como se uma parte dela tivesse partido com ele.
Peter est com a razo. No estou conseguindo pensar com clareza.  Ellen voltou para o sof.
Surpreendeu-se por pensar em voz alta. Peter Whitley a estava tirando do srio. Era uma espcie de aventura emocionante, mas apenas isso. Um tipo de desforra pela traio de Charles, Por sorte, ele era um homem de princpios, ou ela teria muito de que se arrepender.
Peter tinha muitas qualidades, como carter, coragem e solidariedade. A famlia Pryess era prova disso. E, ao tomar cincia de sua ex-esposa, Ellen podia compreender o porqu das acusaes feitas a ela.
Torcendo o nariz, teve de admitir que, afinal de contas, Peter era bom homem. Chegar a essa concluso iluminou um pouco o dia sombrio que tivera.
Mas caiu de novo na mesma encruzilhada de horas atrs. Ainda precisava resolver um problema, e pensar em Peter Whitley no a ajudaria em nada.
Mas, por mais que tentasse fixar-se em Charles, volta e meia a figura de Peter tomava conta de seus pensamentos, e com isso a chama de seu desejo voltava a arder.
Queria gritar de desespero, confusa e perdida com essas novas sensaes. Estava a ponto de abafar num travesseiro toda a frustrao do grito que sufocava sua garganta quando o telefone tocou.
Uma, duas, trs vezes. Decidida a no atender, deixou que a secretria eletrnica fizesse isso por ela. Mas, ao ouvir a voz de sua me, o sentimento de culpa falou mais alto, e alcanou o aparelho.
	Ol, me.
	Por sua voz, devo supor que voc e Charles ainda no fizeram as pazes?
	No ainda.
	Bem, sempre fez o que quis, Ellen, sem ouvir ningum. Mas espero que saiba o que est deixando para trs se insistir em terminar esse noivado. No falo s da vida que poderia ter com Charles, mas tambm do tipo de rapaz que ele , gentil, amoroso. Aquela moa deve ter se jogado nos braos dele.
	Isso  o que ele alega  admitiu Ellen.
	Foi o que imaginei.
	Certo, e quando a prxima mulher fizer o mesmo, como vai ser?
	Na prxima vez, vocs estaro dividindo a mesma cama, e um homem que est satisfeito em casa no se aventura fora dela. Falando nisso, estou lhe mandando dois livros para que tudo corra bem em sua noite de npcias.
Aquela conversa com a me estava deixando os nervos de Ellen  flor da pele. Ruth sabia como ser insistente e desagradvel s vezes. Mas imaginar sua me, sempre to pudica, comprando manuais de sexo, a divertiu um pouco. Admitia que sentia uma certa insegurana quanto a sua performance na intimidade do quarto de dormir. Num estalo, lhe ocorreu que no tivera problemas quanto a isso quando estava nos braos de Peter.
	Talvez pense que estou me metendo muito em sua vida, Ellen, mas  que Charles a ama tanto... E eu odiaria v-la sofrer depois pelo que fizer agora.
	Charles ligou para a senhora!  Ellen deduziu.
	Querida, ele no fez por mal. Preocupou-se por o sr. Whitley ter ido v-la, e teme que isso a leve a cometer um ato impensado.
	Mame, Peter veio me visitar como amigo, e no costumo agir por impulso.
	Isso me deixa mais tranquila. No imagina o que sofre um corao de me. Pense no quanto pode ser bom seu futuro ao lado de Charles. Seus filhos tero um lar estvel. Falo assim porque a conheo, e sei que, se no o amasse, jamais ficaria noiva dele. Espere um pouco, e essa raiva vai passar, voc vai ver.
Ellen sabia que sua me no era uma mercenria, mesmo que  primeira vista fosse essa a impresso. Seus pais haviam comeado a vida do nada, Simon como frentista num posto de gasolina, e Ruth como balconista numa mercearia. Em pouco tempo, Simon se tornou dono do posto, e sua me passou a cuidar da contabilidade. Mesmo sem muito luxo, formavam uma famlia feliz, mas a pobreza dos primeiros anos jamais fora esquecida pela sra. Reese.
Porm, perto dos Tucker, era uma vida miservel, e, quando Ruth tivera contato com eles, o deslumbramento fora inevitvel. Afinal, nem em sonhos pudera imaginar tanto para a filha. Ao saber do noivado, Ruth Reese ficara em estado de graa. E Ellen no negava que tambm via com prazer o futuro que teria ao casar.
Mame, estou exausta. Adorei que tenha telefonado, mas preciso descansar agora.
Assim, encerrou a ligao. Ellen sabia ser firme s vezes, e, de mais a mais, tudo que no precisava no momento era de mais presso.
Cerrando os olhos passou a imaginar a vida confortvel que teria com Charles. Viagens, festas, roupas caras... Mas o que veio-lhe  mente foi a cabana.
De sbito, Ellen abriu os olhos e caiu na realidade. Peter Whitley trazia  tona um fogo intenso que havia dentro dela. Mas um relacionamento no se sustenta s com isso. Alm do mais, vira a reao dele ao perceber algum interesse mais profundo de sua parte.
E nada em Peter indicava que seria o marido que almejava, nem mesmo uma casa ele possua, pois era um nmade.
No acredito. Estou pensando em Peter como se fosse uma possibilidade real! Peter  inadequado para mim, essa  a verdade.
Por mais que se esforasse para afastar aquilo da cabea, tudo foi em vo, pois Peter insistia em continuar ali, mesmo que s em pensamento.
- Vou resolver isso de vez!  Levantou-se para pegar a lista telefnica.
	Presumo que tenha estado com a srta. Reese mais uma vez.  A voz de lan tomou Peter de surpresa.
O brilho no olhar do amigo era diferente, misterioso, e fez com que Peter perguntasse:
	O que o faz crer nisso, lan?
	Voc entrou e mal me olhou ou falou comigo. Pegou esses relatrios e grficos e est olhando para eles como se estivesse em transe.
Peter ficou srio. Por um breve espao de tempo, no disse uma palavra. Depois, confessou:
	Acho que minha atrao por aquela mulher est aumentando consideravelmente.
	J havia percebido isso. Nunca o tinha visto to envolvido.
Peter pareceu contrariado consigo mesmo.
	Desculpe-me se no tenho sido uma companhia de sagradvel, Ian.
	No, de jeito nenhum! Na verdade tornou-se uma interessante fonte de pesquisa. Estava me perguntando por quanto tempo mais voc iria se enganar quanto ao porqu de sua vinda a Boston.
	Eu disse por que vim. No foi para conquist-la, Ian. Tudo o que no quero  uma esposa que acorde uma manh e diga "o que estou fazendo aqui?" e ponha a culpa em mim.
Ian sorriu.
	Vou contar-lhe um segredinho, Peter. No importa como ou com quem voc se case, haver manhs em que sua mulher vai acordar e se perguntar por que se casou com voc.  parte da natureza humana, e viver junto com algum implica isso: trilhar um longo e pedregoso caminho lado a lado.
	Mas pode ser pior quando o que move o casamento  raiva e frustrao pelo outro, e atrao fsica em vez de amor.
	Pode ser.
Algum bateu na porta e interrompeu-os. Ian apressou-se em atender e sorriu ao deparar com uma bela jovem  soleira.
	Professor Cochran?  Ellen perguntou e, rpida, se apresentou:  Sou Ellen Reese. Gostaria de falar com Peter Whitley, ele est?
	Claro. Entre por favor.
	Desculpe-me pela hora pouco apropriada para visitas.
O rosto de Ian pareceu se iluminar ainda mais, e seu sorriso ficou mais largo ao responder:
	Bobagem... Para ser sincero estava me perguntando se no viria mais.
Tentando imaginar o que Peter poderia ter dito ao professor a seu respeito, Ellen no pde deixar enrubescer. Mas, se estava ali, era por um bom motivo, e era s isso que importava.
Guiada por Ian, Ellen adentrou o aposento onde Peter estava, surpreendendo-o de tal maneira que ele ficou boquiaberto.
Gostaria de saber algumas coisas sobre voc, Peter.
A surpresa deu lugar a uma certa cautela, clara no rosto de Peter e no tom de voz ressabiado:
O que quer saber?
	Parece-me que voc leva uma vida nmade, sem destino certo. Existe algum lugar, por pior que seja, que possa chamar de lar?
	Para ser honesto, h, sim.
A resposta no soou muito promissora para Ellen. Temerosa, insistiu:
	Alguma caverna?
	No,  uma casa.
O ar maroto dele deixou-a irritada, mas aqueles olhos faziam pior: deixavam suas pernas bambas, o que a enfurecia ainda mais. Peter a descontrolava, e isso era terrvel.
No ria de mim. Foi voc quem me deixou ainda mais confusa.
O ar de troa de Peter desapareceu.
	Se no me falha a memria, foi voc quem surgiu do nada, garota. Se algum pode afirmar ter sido vtima, esse algum sou eu.
	No me lembro de t-lo chamado para vir a Boston.
	Ponto para voc.
Ellen se repreendeu. No tinha vindo para discutir com ele. Retomou o assunto.
	Essa tal casa, com certeza, fica num fim de mundo, acertei?
	Isso  confidencial...
	Sabia! Deve ser pior que a cabana das montanhas, e ainda mais longe. Emprego, nem pensar, no ? Deve viver da generosidade dos amigos e s trabalhar quando no tem sada.
Aquilo o perturbou o suficiente para que respondesse com aspereza:
Tenho minha prpria firma de consultoria, e meus negcios vo muito bem, caso possa interessar.
Ellen sentiu-se muito mal por ter sido to grosseira com Peter, e. embaraada, corou at a raiz dos cabelos.
	Desculpe-me se o insultei.
Peter continuava estudando-a com curiosidade.
	Posso saber o porqu desse interrogatrio?
	No. Voc mencionou que viaja muito.
	Meu trabalho depende disso.
	Ento, devo presumir que nunca est em casa, no importa onde seja esse lugar.
	Presumiu certo.
	Eu sabia!  Um ar de triunfo surgiu-lhe no rosto. 
 Voc no  mesmo adequado para ser marido. Pelo menos, no para mim. E aposto que sua primeira mulher no o deixou por um homem mais rico, mas sim porque voc nunca estava com ela. Bem, esta no  a vida que quero para mim.
Dito isso, Ellen deu meia-volta e saiu em direo  sada, resoluta, s parando para dizer adeus ao professor.
Obrigada e, mais uma vez, minhas desculpas por interromper seu descanso.
lan ainda estava na mesma sala que eles e mal teve . chance de responder:
Agradecido pela visita, senhorita.  E seguiu-a at a porta.  Voc animou a noite.
J no carro, Ellen pensou que pouco importava se pensassem que era louca ou mal-educada. Queria respostas e as conseguira. Estava pronta para voltar para o apartamento e, com bases slidas, tomar uma deciso madura sobre o que faria de seu futuro.
Ian assobiou assim que girou a chave. Indo ao encontro de Peter, na sala de estar, disse:
	Aquela moa tem algo especial. Gostei dela. E posso apostar, sem medo de errar, que ela est louca por voc.  Bem que poderia ter dado uma ideia melhor de quem  na verdade, Peter.
	Ian, fui honesto. Ellen pode at estar correndo de volta para o noivo, mas no havia nada que eu pudesse fazer. Agora, chega desse assunto.

CAPITULO X

Ellen estava diante de seu desjejum: uma f xcara de caf preto e puro. A noite anterior fora povoada de sonhos dos quais pouco ou nada restara em sua lembrana. Mas de um deles se recordava. Nele Peter aparecia e a abraava com paixo, fazendo-a delirar de prazer. No entanto, logo depois Charles o substitua. Ento, despertou, infeliz. "No existe amor  primeira vista. Muito menos por Peter Whitley."
Mas no sonho fora to agradvel o encontro deles que nada a faria esquec-lo. Tolice, ralhou consigo, aquele anel era a realidade to almejada, e pronto. Mas a seus ouvidos aquilo soou mentiroso.
O telefone a chamou e, do outro lado da linha, sua me disse:
	Alo, querida. Passei a noite toda preocupada com voc.
	Mame, acredita em amor  primeira vista?
	Bem, admito que, desde que vi seu pai soube que ele era o homem de minha vida. Simon tinha sete anos, e eu, cinco. Claro que foi preciso muito tempo at que nos conhecssemos, e s depois de anos de casados  que vim a saber quem Simon era de verdade.  Num esgar de pnico, a voz de Ruth Reese se transformou.  No estamos falando de Peter Whitley, estamos?
	Ele traz  tona sentimentos que nem eu sabia existirem.
	Isso  apenas o efeito das montanhas, dos pinheiros e carvalhos selvagens. Voc nunca havia estado l,  isso. Peter  sua maneira de se vingar de Charles, mas, querida, no aconselho esse tipo de envolvimento. Andou cometendo alguma tolice?
	No, me.
	Pense em voc daqui a cinco anos e saber do que estou falando.
Ellen sabia que Ruth tinha timas intenes, mas seu esprito prtico a enervava quase sempre.
	Me, posso estar morta em cinco anos.
	A  que est! E quem cuidar de seus filhos? Peter Whitley? Charles, sim, pode garantir uma vida segura.
	Tem razo, me. Agora preciso desligar para poder chegar a tempo ao trabalho. E no se preocupe, viu?!
Enquanto se vestia, Ellen ouvia a voz de Ruth martelando em sua mente. Lembrou-se de uma das vezes em que estivera ao lado de Charles numa festa de caridade e ele olhara com pouca simpatia para dois meninos a seu lado, parecia mesmo que elas lhe inspiravam certa ojeriza. E a figura dele no combinava com um beb. " natural que um homem adulto no se sinta  vontade com crianas pequenas..."
Mas, para sua tese ir por terra, veio-lhe a lembrana de Peter com Phillip no colo, to natural e amoroso.
Peter Whitley no quer uma esposa, ouviu?!  Ellen disse a si mesma.  Concentre-se em Charles, seu noivo.
Vendo seu dedo, onde brilhava, majestoso, o anel, recordou o dia em que Charles o pusera ali pela primeira vez. Ele a deslumbrara naquele momento.
O relgio de pulso informou que estava atrasada para o trabalho. Tirando a jia do dedo, colocou-a na caixinha e deixou-o no quarto, saindo em seguida, mas voltou para peg-lo. Decidira-se a se casar com Charles, mas s poria o anel de volta quando tudo estivesse resolvido entre eles. At ento, o deixaria na bolsa. 
Assim que entrou em sua sala, Ellen encontrou um bilhete de Charles sobre a mesa. L, ele dizia que negcios o prenderiam fora da fbrica o dia todo, mas a esperava para jantar s sete, na casa dela.
Elien sentiu-se aliviada por ter algumas horas a mais antes de encarar sua deciso e seu noivo. No faria mal ter mais tempo para poder pensar e retomar seu antigo comportamento racional.
Dirigindo-se  sala ao lado, onde Paul trabalhava, bateu e entrou.
	Paul, me desculpe por no ter voltado  tarde ontem.
	Tudo bem. Sentimos sua falta, mas demos um jeito.
 Apontou um monte de papis.  Preciso de sua ajuda nisso antes do casamento. Charles pediu.
Ellen sabia que Charles gostaria que ela deixasse o trabalho ao se casar, mas nunca aceitara isso, e julgava que ele j tivesse se conformado com sua deciso. Bem que notara o ar estranho de Paul, mas, tinha de ser honesta, o trabalho a estava entediando de uns tempos para c. Ellen preferiria algo mais criativo que ajustar bombas e motores. Queria poder criar coisas, no apenas consert-las. Poderia continuar sua tarefa em casa depois de casada, montando sua prpria oficina na garagem enorme e intil atrs da casa de Charles.
Apesar do olhar desconfortvel que Paul lhe dirigia, limitou-se a dizer, polida:
Pode deixar que eu fao isso.
Ento, ele mostrou-lhe uma pilha de currculos.
Charles pediu que escolhesse seu sucessor, Ellen.
Leia e me d uma resposta.
Ellen tomou-os em seu poder e saiu da saia, pensando que esse era um sinal claro da certeza de Charles em t-la de volta. Bem, Charles era um homem bastante confiante em seus propsitos, mas, mesmo assim, era difcil aceitar tanta convico em algo que dependia dela, e no dele.
Voltou para sua sala e passou a trabalhar nos novos projetos que deveria ou no recomendar. O tempo voa quando trabalhamos, e, quando Ellen deu por si, estava ali havia quase quatro horas, Foi quando uma leve batida em sua porta anunciou a presena de Loretta Tucker.
Vim busc-la para almoar, querida.  E, com um olhar ferino, continuou:  Ento decidiu casar com meu filho. No era sexn tempo. Precisamos falar sobre o casamento. H tanto a fazer...
Ellen pusera o anel no dedo e nem se dera conta disso.
Acho que ainda no estou pronta para essa conversa, Loretta.
Com um ar maternal, Loretta sorriu e tomou-a pelo brao.
Nunca  cedo para comearmos a falar. Venha comigo.
Forando um sorriso, Ellen desligou seu computador e apanhou o casaco e a bolsa. No estava muito interessada em sair com a me de Charles, mas no tinha escolha. Odiaria insultar sua futura sogra.
Fiz reserva para o Country Club, Ellen. Vamos.
Assim que subiram na limusine que as esperava, Loretta abriu o pequeno bar e disse, consternada:
	Que pena! No tenho champanhe para brindar a sua deciso...
	Melhor. Preciso manter a cabea no lugar para trabalhar.
Loretta lamentou, hipcrita, enquanto enchia o prprio copo com vinho:
	Terei de beber sozinha, ento. Mas h muito para falarmos. Estou feliz por voc e Charles. Sinto-me culpada por no ter feito mais por meu filho nesse pequeno incidente, mas por sorte isso no foi problema. Vamos nos concentrar no grande dia.
Mesmo que repetisse para si mesma que casar com Charles era a coisa certa a ser feita, a insistncia de Loretta em falar disso deixava Ellen nervosa. Isso nunca teria ocorrido antes daquele sbado. Ao contrrio, seria um prazer almoar com a sogra e falar da cerimnia.
Mas, naquela poca, no havia Peter Whitley em seu caminho.
Chegando ao restaurante, a melhor mesa as esperava, e Loretta pediu que lhes fosse servido o melhor champanhe da adega.
	Traga-a aberta. Detesto a vulgaridade do espoucar da rolha em pblico.
	Caf para mim  pediu Ellen.
Assim que o garom deu as costas, Loretta falou:
Ellen, voc vai ter de aprender a beber champanhe a qualquer hora do dia. Ajuda a tornar a vida menos cruel, fazendo digerveis os fatos menos agradveis que temos pela frente.
Ellen no esperava ouvir isso de Loretta, que sempre aparentou ser to feliz e com uma existncia perfeita.
Loretta olhou o cardpio de soslaio e sugeriu salmo. O que foi aceito com prazer por Ellen.
Logo, veio o champanhe, e Loretta virou a primeira taa antes mesmo de pedir o almoo, e outra assim que o garom saiu de perto. Estava na terceira taa e nem dez minutos tinham passado. Ellen nunca vira a sogra passar de uma dose de vinho antes, e aquele comportamento a estava incomodando.
	Prometi a meu filho e a meu marido nunca beber em pblico, mas tive uma noite horrvel, alm disso voc j  da famlia, no ?
	Por que no toma gua?
	Porque preciso relaxar. Mas no se preocupe, este  o ltimo copo. 
"Sorte que a limusine tem um chofer. Seria um risco t-la ao volante."
Charles no me disse nada, mas aposto que foi outra mulher a causa da briga de vocs.
Ellen no se sentia muito bem ao ter de relembrar o incidente, nem tampouco a viso de Janet com a camisa de Charles.
Foi o que imaginei, Ellen.
Sem querer parecer traidora do segredo de Charles, Ellen apressou-se em dizer em seu favor:
	Ele j me jurou que no acontecer de novo.
	E voc acreditou, lgico.  Loretta tomou com carinho a mo de Ellen sobre a mesa.
A maneira como soou a frase, e vinda de uma senhora mais velha, e sua sogra, levantou em Ellen uma suspeita desagradvel.
	Ser que entendi bem, Loretta? Est insinuando que fui ingnua?
	Minha cara, ingenuidade pode ser muito til neste tipo de ambiente.  E seu gesto mostrou que se referia ao elegante clube e aos barcos ancorados no luxuoso per.
 S porque seu marido tem olhos cobiosos, voc vai perder tudo? Creia-me, a primeira vez  sempre a pior, mas depois voc se acostuma. E, com o tempo, vai perceber que eles no suportam a palavra "divrcio". Ameace-o e ver que tipo de presente pode ganhar. Charles  um homem como os outros, mas tem gosto apurado e no mede gastos. E assim voc vai levando.
Ellen j ouvira rumores sobre Howard Tucker e sua fama de mulherengo, mas, sempre que o vira com Loretta, a impresso que tivera era de que formavam um casal amoroso e feliz.
	Sempre pensei que se desse bem com seu marido.
	E me dou.  Loretta sorriu, cnica.  Howard tem seus brinquedos, e eu, os meus. Nunca disputamos nada, e ele se julga muito mais esperto que eu, e, claro, jamais vou provar o oposto. Isso  um trunfo meu. Fingir-se de boba pode ser bom para voc, Ellen, deixe que a subestimem. Ponha isso na cabea e ser feliz. Ou quase.
Ellen ouvia-a, horrorizada, e, ao ver Loretta pr sobre na mesa o terceiro copo vazio, levantou-se, dizendo:
	Lembrei-me de algo urgente no escritrio. Adorei o convite para almoar, mas no posso ficar mais.
	No precisa comentar este encontro com meu filho. Ele no apreciaria saber que conversamos a ss.
	Fique descansada, no direi uma palavra. E muito obrigada.
No caminho at um txi, Ellen tirou o anel do dedo. Se aquele era o preo, no estava disposta a pag-lo.
No restaurante, o garom estranhou a ausncia sbita da acompanhante de Loretta, e, vendo o olhar matreiro da senhora, perguntou-lhe:
	Devo aguardar a senhorita retornar para servir o almoo?
	No creio que ela voltar. Ao que me consta, a dama em questo no parece muito afeita s coisas reais que a aguardariam se ficasse. Fazer o qu? Pode me servir. E traga outra garrafa de champanhe. Tenho motivos de sobra para celebrar.
	Num segundo, madame.
A primeira coisa que Ellen fez ao chegar  empresa foi se dirigir ao escritrio de Charles e pedir que Harriet o informasse de que queria falar-lhe com urgncia. E dessa vez no havia sombra de dvida que estava tomando a deciso correta.
No fundo de seu corao, desde que o vira com Janet, soubera que jamais poderia confiar nele de novo. Enquanto aguardava a volta de Charles, mergulhou por inteiro no desempenho da tarefa que lhe fora pedida pela manh. Estava por finaliz-la quando ouviu Charles chamar seu nome ao entrar na sala.
Espero que no v cancelar nosso jantar por causa de trabalho.  E, com seu sorriso mais sedutor nos lbios, disse:  Porei todos os meus empregados fazendo hora extra para poder t-la a meu lado.
O rosto de Elien estava impassvel ao confront-lo.
No vou cancelar o jantar por causa disso, mas porque no vou mais me casar com voc. Tentei me convencer de que voc era o melhor para mim, mas agora vejo que no .
O sorriso de Charles desapareceu e, em sua face, surgiu uma mscara de gelo.
	Voc est sendo injusta.
	Pode ser. Mas a imagem de Janet com voc no sai de minha cabea.
	Pois sim! Aposto que o troglodita est metido nisso.
Peter Whitley  o nome dele. Tanto correu atrs de voc que a fez tomar gosto pelo tipo de homem das cavernas que ele .
	Peter no  um troglodita.
- Para ser franco, esperava mais sofisticao de sua parte. 
Falar do homem que ela prezava fez despertar a ira de Ellen. Perdendo a compostura por instantes, retrucou com veemncia:
Isso no tem nada a ver com Peter ou com o meu gosto pelos homens. Tem a ver comigo e com voc, sobretudo por sua incapacidade de ser fiel.
Charles tinha o olhar isento de emoes.
Parece que sua escolha  definitiva.
Ellen entregou-lhe a caixa com o anel de noivado, semiaberta, para que ficasse visvel o contedo.
Sinto muito por terminarmos assim.
Charles pareceu no ouvi-la. Com frieza, limitou-se a dizer:
Quero sua sala desocupada at a noite. Receber o equivalente a trs meses de salrio, e espero no v-la mais. Aguarde pelo cheque em seu apartamento, mandarei levar.
Ellen mal podia crer naquilo. Perplexa, indagou:
	Est me demitindo?
	Apenas no gosto que me lembrem que errei. Se quiser cartas de recomendao, posso providenci-las se partir sem estardalhao.
Era quase inacreditvel que aquele homem fosse o mesmo com quem ia se casar. Frio e cruel, Charles mostrava que jamais a amara. Apenas julgara que Eilen seria conveniente para o papel de esposa. No passava de um menino egosta e mimado.
	Achei que voc me amasse de verdade. Estava errada, no ?
	Isso era o que me atraa em voc, essa sua ingenuidade quase pattica. E sempre me senti atrado pela dia de poder iniciar uma virgem no universo ertico. No princpio, pensei apenas em lev-la para a cama, mas voc se manteve firme em seus princpios. Meu pai j estava insistindo que me casasse e formasse uma famlia. Ento, juntei o til ao agradvel. Voc  bonita, inteligente, mas nada to espetacular que causasse preocupaes. Se tivesse um marido e filhos, no causaria dores de cabea. Enganei-me. Quero-a fora daqui at a noite.
	Voc nunca me amou...
	Eu gostava de voc. E isso  mais do que sinto pela maioria das pessoas.
Por fim, Ellen descobrira o verdadeiro Charles. Ainda bem que isso ocorrera antes do casamento. Vendo-o sair da sala e de sua vida, foi esse Q primeiro pensamento que ocorreu a Ellen.
Indo em busca de caixas para empacotar suas coisas, Ellen foi brindada pela presena de Paul. Ento, aproveitou a oportunidade para anunciar seu desligamento da empresa.
	Menina, antes assim! Descobriu a tempo de evitar um erro de difcil retorno.
	 isso mesmo. Obrigada, Paul.
E Ellen leu nos olhos do chefe a satisfao de v-la longe de Charles Tucker. Pouco depois, Paul se oferecia para ajud-la com suas coisas at o carro.
Despediram-se com afeto mtuo, Foi s o que marcou seu final na Tucker Inc.
Enquanto dirigia de volta para casa, um alvio imenso a tomou, a ponto de faz-la cantarolar, Na primeira esquina, deu de encontro com a limusine de Loretta. Lembrou a si mesma que estaria para sempre em dbito com a sra. Tucker.
Loretta encontrou o filho sentado a sua mesa, olhando, perdido, pela janela imensa de seu escritrio.
	Paul me contou que EUen foi embora. Demitiu-se.  verdade?
	Ela decidiu no se casar comigo e eu decidi que no queria t-la por perto.
	Igualzinho quando era menino e se cansava de algum brinquedo...
	Mas paguei o que era justo e darei recomendao para um novo emprego, me. Fui correto.
	Corretssimo.
	Ellen ainda vai perceber que fez uma pssima escolha. No h muito romantismo em viver na pobreza.
	Pode ser.
	Bem, ela e aquele selvagem se merecem.
	Tenho certeza de que Ellen ter o que merece.
	Me, estou enganado ou voc gosta dela?
	Gosto. Mas Ellen no  a mulher certa para voc. Precisa, filho, de algum a quem possa comprar. Uma moa como fui.
	Detesto esse seu ar srio. Andou bebendo? No comece a parecer piegas.
	Longe disso. Tenho a vida que escolhi, e sou mais ou menos feliz assim. Sabe o que dizem por a: "Dinheiro no pode comprar felicidade, mas em geral melhora nosso mau humor, coisa que a pobreza s torna pior".
	Voc bebeu.
	Um pouco de vinho e champanhe horas atrs, o que para mim  menos que nada. Passei a tarde orga
nizando o prximo baile de caridade, para o ms que vem. Seja gentil com mame e me acompanhe no jantar. Vamos sair juntos, j que seu amado pai est de namorada nova. S tome o cuidado de saber onde ele estar para evitarmos constrangimentos. Se no, em vez de mantermos a harmonia social, seremos alvo de mexericos.
	Promete no beber demais e se comportar como a dama que ?
	Palavra de honra.
De braos dados, sorriram um para o outro e saram juntos.

CAPITULO XI

Ellen olhava o mapa dos Estados Unidos. f Vasto e desconhecido, era como olhar para seu futuro com inmeras chances. Decidira partir de Boston e tentar a vida em outro lugar. S sabia que desejava estar bem longe de Charles Tucker. E longe de Kansas e de seus pais tambm.
Depois de romper o noivado, a convivncia com Ruth se tornara impossvel. No estava disposta a aceitar suas recriminaes. No mais. Orgulhava-se de no ter entregado  Charles sua virgindade. Preservara sua integridade. Porm, se arrependia por no ter tido coragem de entregar-se a Peter, e esse remorso a fazia lembrar-se dele a cada minuto.
"No tnhamos nada em comum." Seria ruim viver como ele, sem lar, o oposto de tudo que a faria feliz. S a atrao fsica no seria suficiente. "Foi timo Peter ter se afastado de mim depois daquela noite. E hora de deixar o passado para trs e tocar a vida."
Distrada, levou um susto ao ouvir batidas na porta. No estava esperando ningum. Seus pais estavam em Kansas. Sabia disso, pois ligara fazia pouco para eles, e Paul no ousaria v-la depois de ela ter rompido com seu patro. No tinha amigos em Boston.
Apreensiva, abriu a porta, e um arrepio de pura alegria a percorreu. Era difcil acreditar, mas Peter estava ali, em carne e osso.
	Boa noite, Ellen.
	Pensei que nunca mais o veria depois de nosso ltimo encontro.
	Aquela noite a palavra foi sua. Hoje  a minha vez.
 Avanou sala adentro.
	Veio me dizer que no sou boa o bastante nem para uma noite, quanto mais para me casar com voc, e que me comportei de modo ridculo na frente do seu professor?
A vontade de Peter era gritar para o prdio todo escutar que Ellen era a melhor pessoa do mundo, e mais fascinante mulher que j encontrara. Mas no para ele.
	No foi por isso que vim, Ellen. Voc acertou quando disse que eu no daria um bom marido. No posso parar num nico lugar. Mas se equivocou quanto ao resto. Quero ter uma esposa com quem possa dividir minha vida, mas tem de ser algum que se proponha a viver em
lugares remotos, sem confortos e luxos, onde h insetos do tamanho de um dedo e cobras peonhentas.
Mesmo que esse no fosse o mundo que Ellen esperara, a ideia de t-lo ao lado tornava tudo mais interessante.
Queria ouvir mais. E fez com que Peter seguisse com seu discurso.
	No posso querer que troque tudo isso por uma barraca no meio do mato, mas no acho que Charles possa ser um marido melhor que eu. Temo por sua felicidade se casar com ele. Pense bem.
Ellen se perguntava se j vira olhos to azuis quanto aqueles, ou mesmo se j vira aquele tom.
	Quanto ao que disse de Charles, Peter, eu concordo. Porm...
Um sorriso de alvio e alegria transformou-o.
	Ento decidiu no casar com ele?
 Sim , e duvido que nossos caminhos voltem a se cruzar. Notando que Peter j vira as caixas amontoadas no canto da sala, explicou:  Charles me demitiu tambm.
	Ele a demitiu s porque no quis casar?  Peter no imaginara tanta mesquinhez numa s pessoa.
	Eu ficaria grata se isso no fosse comentado fora daqui. Charles me pagou trs meses de salrio e me dar cartas de recomendao.
Ellen, vai permitir que ele compre o seu silncio?
Ela o encarou.
Estou apenas sendo prtica. Tambm quero distncia dele, e preciso do dinheiro e das recomendaes para conseguir um novo emprego. E sei tambm que Charles vai usar tudo o que eu fizer contra mim. No duvido que j esteja espalhando que no passo de mais uma vigarista que apenas o queria por seu dinheiro. Prefiro, portanto, me manter fora desse tipo de situao.
Peter resmungou, mas teve de concordar.
Acho que tem razo...
Ellen estava a salvo. No cometeria o desatino de casar-se com um homem prfido e que no a amava. Peter estava em paz com sua conscincia, pois tivera coragem suficiente para vir at a presena dela e avis-la para pensar duas vezes antes de optar. Mas sua misso j terminara, e era hora de partir e retomar sua vida. Eram incompatveis, Ellen estava certa.
Boa sorte, Ellen.
Vendo-o tomar o rumo da porta, Ellen pressentiu que devia dizer algo, ou levaria muito tempo antes de v-lo retornar da Amrica Central. Talvez tempo demais. No poderia viver com o arrependimento, se nunca mais o visse.
Por acaso no precisa de um engenheiro mecnico em sua empresa? Ou um bom mecnico, pelo menos?  S depois percebeu o quanto fora ousada em se oferecer.
Depois de breve hesitao, Peter virou-se e caminhou at onde Ellen estava. Esses poucos passos foram os mais difceis desde que aprendera a andar. Mas era preciso fazer a coisa certa, pois Ellen era muito especial para ele.
No acho que seria uma boa ideia, para mim, contrat-la. No vou negar que sua oferta  muito tentadora. Mas no posso garantir que manteria minha linha de conduta com voc por perto. E acaba de sair de uma relao, est fragilizada... No quero que possamos ter motivos para nos arrepender no futuro.
Ellen no podia discordar do que Peter acabara de dizer. Era a pura expresso da verdade, precisava de algum tempo para voltar a se relacionar com outros homens. Mas naquele instante s desejava uma coisa: tomar para si o rosto de Peter e beijar-lhe os cantos da boca.
Mas essa era uma atitude inconcebvel para ela, a engenheira Ellen Reese, sempre to racional.
	Minha me disse que voc  minha verso da depravao.  Mais uma vez Elen pensara em voz alta, s que agora no estava s. Ficou vermelha diante da perplexidade de Peter.
Peter abriu a boca num esgar e repetiu, incrdulo:
	O que disse?
	Nada, no disse nada.
	Admiro voc por seu rigor em seguir seus princpios. E raro encontrar uma mulher que tenha valores hoje em dia.  V-la to vulnervel e acabrunhada despertou em Peter um desejo quase ineontrolvel de torn-la nos braos e acalent-a como a uma menininha assustada.
Mas, se chegasse a t-la to prxima de si, Peter sabia que no conseguiria manter-se to controlado quanto j fora nas vezes anteriores. Temia que seu desejo se sobrepusesse  razo. Num gesto inesperado, tirou do bolso sua carteira e, meio trmulo, tirou dela um carto e deu-o a Ellen.
	Estarei na Guatemala em um dia ou dois. Quando estiver instalada, me mande seu endereo e, ao voltar, irei a seu encontro. Se ainda persistir em ns a mesma atrao, a ento falaremos a respeito.
	Na teoria, isso parece muito sensato.  Assim como Charles, Peter tambm a queria fora de sua vida. Orgulhosa, Ellen no se deixou abater.  Sinto muito, mas no tenho mais idade para esperar. Ao que me parece, somos pessoas incompatveis. No quero ter o desprazer de constatar que nossa atrao de hoje pode ser ridcula daqui a trs meses.
Escreva-me.  E bateu a porta atrs de si.
Lutando contra as lgrimas que turvavam-lhe a viso, Ellen repetia para si mesma que no podia estar to abalada com a partida de algum que at uma semana antes no fazia parte de sua vida. Num impulso, atirou o carto dele no lixo.
Enquanto isso, Peter, l fora, esttico ao lado de seu carro, no conseguia se resolver. Ento, cerrou os dentes, e, sem titubear, galgou os degraus de volta ao andar de Ellen e esmurrou sua porta at ser atendido. Bufando, despejando as palavras sobre ela:
Case-se comigo!
Estarrecida, Ellen ficou muda, certa de que estava delirando. Precisou abrir e fechar os olhos e se beliscou antes de crer no que estava lhe acontecendo.
	E se voc achar que no sirvo para viver a seu lado, Peter? Tenho...
	Eu tambm tenho, e da? Prefiro correr qualquer o risco com voc do que passar mais uma hora que seja sem t-la. No queria uma relao, e pensei que no a teria. Mas a maioria das decises que tomamos so como apostas. No trabalho  assim. Por que teria de ser diferente no casamento?  Peter estava propenso a fazer valer sua fama de homem das cavernas. Por ele, apenas, poria Ellen nos ombros e a carregaria consigo. Para sempre.
	Isso  loucura, Peter. Veja bem...  Ellen suspirou.
 Caso, caso, caso, sim, com voc!
Disse isso j esperando sentir o pnico que a assaltaria. Esperou em vo. O que sentiu foi uma imensa e indizvel felicidade. "Este pode ser o maior erro de sua vida", ouviu a razo dizer-lhe, mas, em vez de se preocupar, mandou sua conscincia ir passear. Bem longe.
Trs dias e meio depois, Ellen estava de volta  mesma igreja na qual passara todos os domingos de sua infncia, onde fora batizada e fizera a primeira comunho. As mesmas pessoas que a tinham visto crescer em Kansas City estavam ali para assisti-la caminhar pela nave enfeitada com flores de pessegueiro.
Trmula, usando o mesmo vestido que sua av vestira havia mais de meio sculo e com um buque de margaridas e lrios nas mos delicadas, Ellen se transformara numa viso deslumbrante. Mais que beleza fsica, irradiava um encanto nico, raro e precioso. Um encanto que s as mulheres que amam conseguem ter.
Peter trouxera seus pais do Arizona. Os tios de Ellen, com Ruth e Simon, foram os padrinhos. Sem alarde, a parquia de Kansas City os viu contrair matrimnio.
A pressa do evento fez com que os pais de Peter mal tivessem tempo de conhecer Ellen antes da cerimnia, e, mesmo com toda a polidez e gentileza que ambos demonstraram, era perceptvel um certo desconforto em relao aos dois.
Ouvi-lo repetir diversas vezes que estava se casando por livre e espontnea vontade e no por alguma presso externa pareceu a Ellen um tanto ou quanto descabido, mas, ainda assim, ela relevou.
At Simon, ao entreg-la a Peter, sussurrou a seu ouvido, como se lhe desse uma ltima oportunidade de fuga:
Querida, tem certeza do que est fazendo?
Ellen apenas olhou para Peter, a sua frente, to convicto e cheio de esperanas em um futuro comum.
Sim, papai, tenho absoluta certeza.
Ellen havia optado por dizer suas prprias palavras no momento supremo da cerimnia, quando noivo e noiva expressam perante a comunidade a vontade de contrarem uma aliana eterna com o outro.
Foi ento que o velho proco, para surpresa dos presentes, resolveu dizer:
	Ellen, eu a conheo desde que nasceu. Vi-a crescer e nunca presenciei um gesto seu que no fosse coerente e responsvel. Nem sempre os aprovei, mas no posso negar que sempre a respeitei. Portanto, mesmo sabendo que ambos aqui presentes tm idade e discernimento para arcar com suas atitudes, no posso me furtar a meu corao. Se desejam, do fundo de seus coraes, prosseguir com esta cerimnia, vamos' em frente. Caso contrrio, amparados por minha mo e voz, desistam, se houver um minsculo ponto de incerteza quanto ao passo que esto prestes a dar.
	Eu, Ellen Reese, quero, de toda minha alma, desposar este homem, com todos os deveres que possam advir desta deciso.
	Case-nos  imps a voz do noivo, confiante e definitiva. 
Ellen estava um pouco nervosa, admitia. Muitas horas haviam decorrido desde a cerimnia religiosa e os ltimos convidados do jantar que fora servido em comemorao.
Os pais de ambos j haviam dito uma centena de vezes que esperavam que fossem muitos felizes e, se por acaso haviam duvidado do futuro daquela unio, fora apenas porque os amavam demais.
A ss, enfim, Ellen e Peter estavam parados  porta da sute nupcial do melhor hotel de Kansas. Antes que tivesse tempo de perceber o que acontecia, Peter a tomou em seus braos e a carregou para dentro do quarto.
Surpresa e feliz, Ellen se assustou com o luxo da sute. Na certa custara muito caro, talvez demais para as posses de Peter.
No esperava tudo isso, querido. Sei que fez para me agradar, mas no era preciso.
	Achei que voc merecia ter o melhor esta noite. Afinal, daqui em diante no ter muita chance de viver com conforto.  Tomando o buque das mos dela, Peter aproximou-se.  Nosso vo sair em menos de quarenta e oito horas. Detestaria desperdiar esse tempo com palavras.  Roando seus dedos na face delicada de Ellen, a fez estremecer.
	No se preocupe. Vou mudar de roupa para nos deitarmos.
Os olhos de Peter a devoravam e, segurando-a pelo brao, murmurou com voz rouca:
	Para que, se minha nica vontade  descobrir cada pedacinho de voc?  Ato contnuo, suas mos alcanaram os botes da blusa fina que Ellen vestia, abrindo-os.
	J que tocou no assunto, talvez eu possa sugerir um modo delicioso para passarmos o tempo...  E se aninhou nos braos que a levavam at os lenis de cetim adamascado.
Quietos e eloquentes ao mesmo tempo, mergulharam no paraso terrestre.
Entre uma garfada e outra, Ellen parecia pensativa, circunspecta mesmo. A omelete estava tima, como tudo o mais que ocorrera nas ltimas trinta e seis horas com Peter no quarto de hotel.
Um certo cansao gostoso a dominava, resultado de horas e horas de amor. Com os olhos semicerrados, sentiu a mo de Peter sobre a sua e sorriu, em xtase.
	Meu reino por seus pensamentos  ele brincou.
	Perdeu seu reino  toa. No pensava em nada, estou muito cansada para isso.
	Exagerei?
	No, seu tolo, adorei cada segundo.
A presso dos dedos aumentou, e a voz de Peter mudou de entonao ao falar:
Querida, se quiser ficar em Oregon, em nossa casa, enquanto vou para a Guatemala, entenderei. Talvez seja melhor para ns dois.
	Nem pensar! Combinamos ficar juntos, e vamos manter nossos planos. Alis, posso saber o que vamos fazer l?
	Prospeco mineral, Ou seja, procurar ouro e pedras preciosas.
	Parece muito interessante...
	Nada comparado ao prazer de explorar seu corpo...

CAPITULO XII

Nem dois dias tinham se passado e Ellen e Peter estavam pousando na Guatemala. Nas montanhas exuberantes havia uma magnfica propriedade do homem que contratara Peter, um milionrio chamado Valjuerez, dono de uma extensa rea de terras.
S se chegava l de helicptero, e Ellen teve de superar seu terror por esse tipo de transporte. As provises tambm foram com eles, j que o lugar era inspito e desabitado.
Um homem de cerca de quarenta anos, feies bastante marcadas e descendente de maias chamado Carlos Gomez apresentou-se como sendo o administrador do sr. Valjuerez. A primeira atitude dele ao' v-los desembarcar foi lanar um olhar de recriminao para Ellen.
	No ser fcil a trilha nem para um homem treinado, Peter. A selva no  lugar para mulheres. Cobras
e aranhas so abundantes.
	No se preocupe, meu marido j me falou a respeito. E sei me cuidar melhor do que imagina.
Peter riu e, olhando para o homem, disse:
Quer um conselho? Nem tente discutir com essa moa. Nem um terremoto a faria mudar de ideia.
As piadas pararam ali. Bastou entrarem na selva equatorial para que o humor deles mudasse. Aquele no era mesmo o melhor lugar para descanso ou divertimento.
Ellen no demorou a perceber que tinha escolhido roupas quentes e pesadas demais para a ocasio, e sua bagagem de mo estava to pesada que mal sentia os braos.
J estava reformulando sua determinao em fazer parte da expedio quando foi brindada com a apario repentina de uma monstruosa cobra. Petrificada de terror suas pernas se recusavam a dar um passo que fosse. Peter percebeu que as coisas no estavam indo como Eilen imaginara, e sem nenhuma condescendncia perguntou:
Est arrependida de ter vindo?
No.
Mais e mais insetos e desconfortes a cada metro por onde passavam, mas, mesmo assim, Eilen sentia fortalecer sua alegria por estar ali, encarando tudo o que estivesse a seu redor com jovialidade e otimismo, e desfrutando da aventura.
E depois, j que havia abandonado a lgica como di-retriz de sua vida, tudo o que viesse seria bem-vindo.
Passava do meio-dia, Era o quarto dia da expedio, e Ellen foi obrigada a encarar a verdade do que estava ocorrendo. Enquanto Peter se embrenhava numa caverna recm-aberta por ele, restava a ela aguardar.
	E meu trabalho explorar. Voc fica aqui, junto com os outros.  Peter no deixara alternativa.
	Tome cuidado.
Brevssimo dilogo, e depois disso, uma irritante espera. Fora um capricho no ter esperado por Peter na sede da fazenda. Por temer a convivncia com estranhos, se metera numa confuso sem limites.
Se pensasse bem, at seu casamento com Peter fora um pouco precipitado. Apenas se baseara na atrao fsica, e isso talvez fosse pouco.
Temia que uma manh qualquer pudesse acordar ao lado dele e no saber como aquilo acontecera. Mas, pelo menos por enquanto, no tivera essa experincia. "Mas isso no significa que no venha a acontecer depois de amanh..." Pensando dessa forma ctica, Ellen aguardava a volta do marido das profundezas da terra.
Os minutos pareciam horas, e no custou muito para que um certo pnico a dominasse. Imagens assustadoras de Peter em perigo se sucediam em sua mente. 
Com o corao apertado, ouviu Carlos dizer para os outros que, pela demora em retornar, Peter estaria colocando explosivos. Devia ter encontrado o que procurava.
A angstia dos minutos que se seguiram quase sufocou Ellen. As palavras no lhe vinham  memria quando resolveu comear uma prece, ento uniu toda a fora de seu pensamento numa splica ao Criador pela vida de seu marido.
No cabiam incertezas quanto a seu amor por Peter. Nesse momento crucial, todas as dvidas se dissiparam como a nvoa num dia ensolarado, e Ellen soube, pela primeira vez na vida, o que era amar um homem. E o que significavam os votos feitos no dia de seu casamento.
Aproximou-se de Carlos para perguntar pelo real perigo que Peter estava correndo, e por que ele no a avisara.
	No se preocupe, senhora. Seu marido no  apenas o melhor, mas tambm um sujeito de sorte. E pediu que no a preocupssemos.  Olhando para o relgio, Carlos se afastou e comeou a retirar os homens e instrumentos do local, assustando-a ainda mais.
	O que foi, Carlos?
	Senhora, depois de quarenta minutos l embaixo, tenho ordens dele de colocar o pessoal em segurana.
	Mas e Peter?
	O dr. Whitley sabe se cuidar, e, se algo der errado, no quer que ningum mais corra perigo. Ordem expressa dele mesmo. Com licena.
Esttica, Ellen viu Carlos se afastar dali, e os outros homens se moverem rpido e com olhos cheios de medo. J estava impossvel controlar os soluos quando suas preces foram atendidas e a voz amada fez-se ouvir.
Carlos! Ellen! Achamos! Ns encontramos o veio principal!
Ellen correu para os braos de Peter, e, a despeito de toda a terra que o cobria, encheu-o de beijos.
	Quem liga para o ouro?! Voc est vivo! Como eu te amo, Peter!
	Boba... Achou que eu ia desistir de voc? Quero uma esposa, no uma viva.
	Peter, vou avisar pelo rdio que a misso terminou. O sr. Valjuerez vai ficar satisfeito.
Dois dias depois, olhando pela janela lateral do caminho, Ellen tinha uma vista daquilo que Peter chamava de sua "cabana" nas montanhas.
Comeara a suspeitar que seu marido escondia alguma coisa quando um jatinho os esperara no Aeroporto de Los Angeles para lev-los at Oregon.
	Quando o homem do posto de gasolina falou que esta era a sua montanha, no estava falando srio, estava?  perguntou Ellen, embevecida com o que via.
Um lugar maravilhoso, cheio de rvores centenrias at onde a vista podia alcanar, e, bem no meio de tudo, uma casa imensa e rstica, maravilhosa.
Sou o dono de quase tudo o que v.
A expresso confusa chegou  perplexidade no rosto de Ellen.
	Voc me disse que sua primeira mulher s pensava em dinheiro, por isso o deixou.
	No meu dinheiro, na verdade. Quando tinha vinte e um anos, comprei um pedao de terra no Alasca, pensando em conseguir bons exemplares minerais l, para estudo. Achei ouro, muito ouro. Em seguida, comprei uma mina abandonada no Mxico e acabei reativando a extrao de esmeraldas. Com esse sucesso, passei a ser chamado de Toque de Midas. Assim Nancy me achou, e casou-se comigo por minha fortuna. Depois disso, convenci-me de que meu toque era apenas para achar riquezas, e no um amor.
E a tomou nos braos. Beijando-a com paixo, murmurou a seu ouvido:
	Estava enganado. O seu toque  que transforma tudo em ouro, at a minha vida.
Um rpido flash passou pela cabea de Ellen.
	Foi voc quem deu o avio para os Pryess! Peter, eu te amo cada vez mais!
	Eles mereciam uma chance de recomear.
	E salvou-me de Charles...
	Acho que mereo ser recompensado por tantas boas aes...  E, cheio de malcia, tomou Ellen nos braos.
Subindo as escadas da casa, entrou com ela no colo. A sala estava cheia de flores, e, na lareira, uma foto dela vestida de noiva. Mas as lgrimas de felicidade s inundaram o rosto de Ellen quando ouviu-o dizer:
	Bem-vinda ao lar, sra. Whitley.
Depois de beij-lo demoradamente, Ellen sorriu e disse o que lhe ia no pensamento:
	E minha me estava preocupada se nossa casa teria eletricidade e gua...
Cerrando os olhos, deixou que seu amado marido a levasse para o quarto.

FIM
